quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

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NÃO DEIXE DE LER A ENTREVISTA COM
MARLUCI DE OXAGUIÃ
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NILO COELHO

MEDIUNIDADES: ESPIRITISMO X UMBANDA - ENTREVISTA YALORIXÁ MARLUCI DE OXAGUIÃ

Yalorixá Marluci de Oxaguiã - CESJ


Filha de Mãe Beth de Oxalá, neta de Ida de Xango criada e coroada em Umbanda e Almas e Angola. Em seu terreiro, Centro Espirita São José, localizado no bairro da Agronômica, em Florianópolis, cultua além dos sagrados orixás de Umbanda nas sextas-feiras, uma sessão espírita mensal (mas conhecidos como Linha Branca ou Kardecismo) e em seu terreiro também faz cirurgias espirituais. Nesta entrevista Marluci nos conta um pouco da experiência vivida por ela no ritual Almas e Angola e nas sessões espiritas, explica como é praticada a Umbanda com caridade e humildade e deixa um recado para os novos médiuns e para os Zeladores e Mentores, ajudando assim, a desmistificar estas duas linhas que parecem tão diferentes, mas na verdade, não são.






Blog: Qual ritual praticado no seu terreiro e quais os dias de sessões, desenvolvimento, etc.?


Marluci: Nossas sessões são nas sextas-feiras com inicio as 20h. nossas reuniões de desenvolvimento e estudos são nos sábados com inicio as 15hs. E as sessões espiritas uma segunda-feira por mês também as 20hs.


Blog: Quais ações sociais são praticadas em seu terreiro?


Marluci: Há algum tempo tinhamos um trabalho de assistência em uma creche com arrecadação de alimentos, brinquedos, etc. e até mesmo tinhamos uma Psicóloga (filha de santo da casa) que dava atendimento gratuito as crianças, mas a burocracia nos impediu e se tornou muito difícil prosseguir com nosso trabalho. Hoje continuamos com as arrecadações, mas, distribuimos aos necessitados, normalmente o pessoal de rua, andarilhos, sem teto, viciados, alcoólatras. E no fim do ano, promovemos a campanha “Natal Feliz”, onde arrecadamos e distribuimos cestas básicas, brinquedos, calçados e roupas.


Blog: Como se deu seu primeiro contato com a Umbanda?


Marluci: Tive uma formação católica muito rigorosa, inclusive fui noviça num convento por dois meses, meus pais na época do nascimento de minha irmã mas velha, eram filhos de santo do falecido Jaqueta, mas nunca trabalharam dentro do terreiro, sempre ficavam na assistência. Mais devido ao trabalho de meu pai, que era policial militar, eles começaram a deixar de frequentar o terreiro, e minha família começou a procurar a Igreja Católica em busca de proteção, inclusive se hoje existe a Capela do Caeira foi graças a meus pais que trabalharam muito na construção. Então todos os treze irmãos tiveram uma formação católica, eramos ratos de Igreja. Um dia fui me confessar, numa quinta-feira santa, e o Padre Pedro Martendal me disse que eu deveria procurar outro culto, porque o catolicismo não era minha religião. Fiquei arrasada, me senti privada do que eu possuía desde que nasci. Fui conhecer a Umbanda quando conheci o Renato (Babalorixá Renato de Oxossi) que era na época ogã desta casa fundado por seu Pai (Pai Atanair), mas morria de medo, porque era extremamente católica. Casamo-nos e depois de algum tempo fiquei muito doente, os médicos não conseguiam dizer o que eu tinha. Um dia o Preto Velho do Renato veio na minha casa, porque no terreiro eu não entrava, e me disse que era espiritual o meu  problema. “Achei que era onda, porque afinal de contas, a família dele era toda macumbeira”. Então ele fez um acordo comigo: eu iria ao médico mais uma vez e se não encontrassem nada eu iria ao terreiro. Fui e fiz toda bateria de exames e novamente não encontraram nada. Cumpri minha parte e fui ao terreiro, desesperada de dor, me colocaram no centro do terreiro e no mesmo momento incorporei Seu Sete Estrelas, dia 25 de Janeiro de 1989. Deste dia em diante não sai mas do terreiro.


Blog: No seguimento você se desenvolveu e fez suas coroas dentro do ritual, na época, Umbanda?


Marluci: Fiz Babá, e reforço de sete anos na Umbanda, não tem oborí ou mãe pequena, um dia fui visitar um terreiro de Almas e Angola e bolei no santo.


Blog: Bolou na primeira vez que entrou, esse terreiro era de sua Mãe de Santo?


Marluci: Não, era de Jorginho (Babalorixá Jorginho de Oxossi), o santo chegou deu o ponto em Almas e Angola. Eu não aceitava fazer uma nova coroa num ritual que nem conhecia, mas fui em frente.


Blog:  No Espiritismo há um entendimento comum de que todas as pessoas são médiuns em potencial, independente do desenvolvimento desta faculdade. No seu ritual também há este entendimento?


Marluci: Não, em minha opinião o médium é um mediador entre o Orixá e o povo que procura o terreiro em busca de auxilio. Todas as pessoas tem compromisso com a espiritualidade, mas não precisam incorporar para cumprir este compromisso.


Blog: Seria, talvez, para zeladores de pouco conhecimento, uma forma de trazer mais pessoas para a corrente?


Marluci: Não vou generalizar, mas existem muitas casas que usam a religião como meio de vida. Então é interessante para eles terem muitos médiuns na corrente, afinal são muitas mensalidades, muitas pessoas trazendo amigos e “consulentes”. Na verdade, estão destruindo a Umbanda, que precisão sim de médiuns verdadeiros e não de vaidosos que querem aparecer.


Blog: Os guias que se manifestam através do médium umbandista, sempre o acompanharam, desde o seu reencarne?


Marluci: Acho que tudo tem o momento certo. Na hora que o aluno esta pronto o mestre aparece. Você tem um compromisso com sua entidade e esse compromisso é firmado antes de você reencarnar. Então quando seu Caboclo vem é no momento em que você esta pronto para recebê-lo.


Blog: A revelação da consciência mediúnica aproxima o médium da responsabilidade da comunicação, Você entende que trabalhar com médiuns inconscientes é melhor que com conscientes? Qual melhor médium para trabalhar?


Marluci: O melhor médium é o médium concentrado. Quanto à inconsciência, de cem médiuns cinco são inconscientes. Seu Sete Estrelas (Caboclo da Marluci) diz que o médium inconsciente não é confiável, a entidade corta a consciência exatamente por não confiar na reação ou ação que o médium pode ter ao estar incorporado, podendo intervir ou digamos atrapalhar o trabalho da entidade. E o médium que é consciente ele trabalha junto com a entidade, ele aprende, ele permite que a entidade trabalhe e não interfere no trabalho. Mas o médium inconsciente pode aos poucos, por merecimento, ganhar a consciência.


Blog: A mediunidade não desenvolvida, ou seja, reprimida, pode causar mal físico ou psíquico ao médium umbandista?


Marluci: Pode. A mediunidade é um compromisso firmado e a pessoa o trás no seu períspirito. Chega o momento de ela trabalhar e ela não vai usar o seu fluido energético e esse fluido vai sair de qualquer forma podendo afetar o corpo tanto quanto a mente.


Blog: O que fazer para a promoção da desmistificação da Umbanda?


Marluci: Acho que o estudo é a única forma. Ensinar ao médium que não existe mediunidade burra. Não podemos aceitar as respostas prontas, temos que questionar o porquê das coisas. Precisamos mostrar que a Umbanda é amor e caridade. Quando todos aceitarem isso acabará a desmistificação.


Blog: Porque existe mais médiuns brancos do que negros?


Marluci: Na realidade em minha opinião, não existe preconceito de raças. Existem sim, pessoas com oportunidade ou não de frequentar um terreiro como já falei, hoje para frequentar a maioria dos terreiros a pessoa precisa ter dinheiro.


Blog: Você acha que os rituais e histórias das religiões afro-brasileiras deveriam ser aprendidos nas escolas, como a religião católica o é?


Marluci: Ensino religioso não significa que tem que ser um ensino católico. Todas as religiões deveriam ser estudadas nas escolas. Poderia ser uma aula sobre Catolicismo, uma sobre Hinduísmo, Umbanda e por ai vai. O Brasil é um país ecumênico, aceitamos todas as religiões.


Blog: Qual a diferença entre os rituais Almas e Angola e o Candomblé?


Marluci: No candomblé a energia do Orixá é muito mais sutil, por isso vem poucas vezes. No Candomblé é dado muito mais energia ao orixá. Em Almas e Angola o Orixá vem com uma energia mais densa.


Blog: Vc. Trabalha com uma linha de cirurgias espirituais, explique como funciona. É na linha de Umbanda ou Espiritismo?


Marluci: Com Umbanda. Quem faz a cirurgia são as entidades incorporadas, Caboclos, Exus ou Pretos Velhos. Dependendo da doença que a pessoa tem, é evocada a entidade que fará a cirurgia. Pode ser preciso a energia de um Caboclo ou de um Preto Velho. A cirurgia só é feita depois que a pessoa já foi ao médico e geralmente procura o terreiro quando tem medo da cirurgia tradicional ou está desenganada. A cirurgia não é física é puramente espiritual, ou seja, sem a fé não há cura. Já houve aqui, como exemplo, cirurgia em uma pessoa que não podia ter filhos e hoje tem três, eu mesma fui operada de um nódulo no útero e um no seio diagnosticado por minha médica e quando voltei a consulta, apareceu somente uma cicatriz em meu útero, como se tivesse sido cauterizado, a médica não consegue explicar até hoje como eu consegui esta cicatriz. E existem muitas pessoas e até médiuns de nossa casa que fizeram cirurgia e até hoje estão curados.


Blog: Você acha que os ensinamentos de Almas e Angola foram modificados para melhorar o ritual ou somente serve para comodidade dos zeladores?


Marluci: Em alguns casos, para melhorar a vida do pessoal, mas a maior parte é para facilitar o trabalho dos zeladores. Acho que no passado as coisas eram feitas com mais fé. Hoje em dia é feito com muito orgulho e muita vaidade. Sou mais da linha antiga, não aceito que você sirva para o orixá num copo plástico, tem que ser cristal, no mínimo vidro, não pelo brilho, mas pela energia transmissora. Não aceito que diga “Há faz assim que tá tudo bem”. Ou faz o certo ou não faz.


Blog: É correto a cobrança de atendimentos mediúnicos, búzios, cartas, trabalhos, etc.?


Marluci: Em momento algum. Ninguém pode cobrar para rezar pro mesmo Deus. Se quiser ganhar dinheiro arrume um emprego. Com relação às cartas e jogo de Búzios, conta à lenda que é preciso que te paguem pra não perder o axé do jogo, quando não existe incorporação. Então cobra-se uma quantia simbólica, não como em alguns lugares que cobram fortunas por um jogo de búzios ou carta. Isso é exploração. Os Ebós, limpezas, trabalhos na mata ou cachoeiras, batizados nunca podem ser cobrados. A pessoa fornece o material porque não existe Zelador que possa dar tudo, mesmo assim se a pessoa não tiver condições, é feito uma arrecadação entre os médiuns e é feito o trabalho. Caridade não se paga.


Blog: E com relação aos trabalhos ditos “de Amor”, onde alguns Zeladores, incorporados com Pomba Giras ou Exus, garantem que trazem seu amor de volta em pouco tempo por uma quantia?


Marluci: O amor entra na sua vida conforme o merecimento que você tem. A religião não existe para isso. Se você quer arrumar um amor se produza, trabalhe, estude, seja inteligente e conheça pessoas inteligentes, logo você encontrará sua outra metade. Acho que os zeladores tem e devem ter muito mais coisas para se preocuparem do que quem vai dormir do seu lado. Se as pessoas estudassem mais não procurariam tanto os Exus e Pombas Giras pedindo estes tipos de trabalhos.


Blog: Porque se faz tantas coroas para Babá atualmente?


Marluci: Infelizmente por causa do dinheiro. Hoje, uma feitura pode custar de R$ 1.600,00 a R$ 1.900,00 e, em uma semana é um ótimo salario.


Blog: E com relação à hierarquia, em seu terreiro, por exemplo, quem pode usar penacho?


Marluci: Aqui ensinamos igualdade, o Caboclo que trabalha comigo é tão Caboclo quanto ao que trabalha com um Abian de desenvolvimento, a coroa é da pessoa não do Orixá. Se o Caboclo pedir e vermos que realmente o médium está concentrado, que não é vaidade do médium, o Caboclo pode usar seu penacho com qualquer que seja a coroa do médium. Como o Preto Velho vai ter seu chapéu se pedir.


Blog: A umbanda é baseada em caridade e humildade, o que dizer sobre Zeladores que exigem tratamento especial? O Babá tem que ficar na frente, beber somente em copo de vidro, prato de louça, a melhor bebida, comer primeiro que todos, etc.


Marluci: Eu penso que o Zelador que exige isso, acha que a coroa dele é matéria. Ele acha que se não usar um copo de vidro ou ser o primeiro a ser servido vai perder a sua mediunidade. O Babá que pensa desta forma é porque a coroa dele é material não é espiritual. Quando ele perceber que a coroa dele é por merecimento, pelos atos que faz e não pelas coisas que ele usa, ele vai parar de dar importância para isso. O que vai dizer que serei um bom Zelador ou não, é o que estudo, é como me porto, e a maneira como trato as pessoas, e ver que cada pessoa que esta na minha vida me ensina alguma coisa. Não me importo de beber numa cuia de coco ou comer com as mãos. De que adianta ficar se mostrando no terreiro e lá na rua ser encontrado alcoolizados e aprontando. Minha coroa é espiritual.


Blog: Em que grau da hierarquia se pode atender ao público?


Marluci: Vai da dedicação e concentração do médium, não é a coroa dele que vai dizer se ele pode ou não atender, a firmeza dele é que dirá.


Blog: Qual o Orixá mais fácil de incorporar para o médium iniciante?


Marluci: Não existe isso. A concentração e preparação do médium é que são importantes. Se ele veio ao terreiro só pra mostrar a roupa bonita e dizer que estava na corrente, pode acreditar esse vai apanhar.


Blog: Vc. Acha que o atendimento residencial não é aconselhável?


Marluci: Mesmo que ele seja um Babá eu não aconselho que ele atenda em casa. Quer atender? Convide e venha atender dentro do terreiro. Terreiro tem segurança. Você não sabe o que a pessoa está levando com ela para dentro da sua casa. Você não sabe se sua entidade vai ter força suficiente para lidar com aquilo. Quer fazer caridade, ajudar o próximo, tudo bem, mais se proteja. A melhor proteção para o médium é o terreiro.


Blog: É possível Pretos Velhos e Caboclos trabalharem numa sessão espírita, certo? Então Exus e Pomba Giras também podem trabalhar na sessão espirita?


Marluci: Sim, tudo depende da evolução da entidade e não do rótulo dado à entidade. Eu conheço Exú que precisa trabalhar como Exú, porque na verdade ele tem evolução para trabalhar como Preto Velho ou Caboclo. O Exu tem seu trabalho dentro da espiritualidade. Assim existem trabalhos que ninguém quer fazer, mas precisam ser feitos. Como o lixeiro, alguém tem que limpar a sujeira. Se todo mundo quer ser Caboclo ou Preto Velho quem vai limpar a sujeira.


Blog: Então a sua sessão espirita difere das sessões que todos estão acostumados? Têm Pretos Velhos e Exus cantando pontos, salvando o terreiro, com seu fumo e bebidas?


Marluci: Não, eles vêm ali sentados, eles dizem o que tem pra dizer. Ali ele se identifica e deixa sua mensagem se tiver merecimento para isso. Muitas vezes a entidade vem e nós nem imaginamos que era um Preto Velho que esteve ali. Porque eles não falam errado, eles não fumam cachimbo nem charuto, ou seja, é uma energia mais sutil. É totalmente diferente de uma sessão de Umbanda.


Blog: Como você prepara um médium para as sessões espiritas?


Marluci: Estudo, disciplina e concentração.


Blog: Existe alguma relação entre ciência e religião no ponto de vista espirita/umbandista?


Marluci: Não. Eu acredito que a religião explica a ciência.


Blog: As sessões espiritas, como conhecemos, são feitas para que os espíritos venham e tragam mensagens, curas e ensinamento. São pessoas desencarnadas que retornam como espíritos para isso. É possível espíritos de pessoas consideradas “ruins”, tipo pedófilos, assassinos, estupradores incorporarem nestas sessões?


Marluci: Como entidade se ele tiver merecimento para isso, sim. Agora ele pode vir também como um obsessor para obter ajuda.


Blog: E ele vindo como obsessor existe algum risco dele prejudicar o médium ou a s pessoas que estão na sessão?


Marluci: Não, porque se ele vem nesta sessão, quem o traz são outros espíritos, os mentores do trabalho. Ele vem controlado com a energia dos mentores que estão ali amparando o trabalho, então o médium não corre risco algum.


Blog: Existem muitos casos de crimes que são praticados, supostamente, por pessoas incorporadas. Um espirito pode cometer um crime?


Marluci: Não. O médium pode cometer um crime e dizer que foi o espirito. Deus é o único que pode dar a vida ou tira-la, se um espirito puder tirar uma vida eu começaria a não acreditar em Deus.


Blog: Um obsessor ou Egum pode ser afastado eternamente de uma pessoa através do espiritismo ou da Umbanda?


Marluci: Eternamente ele só pode ser afastado através da energia da própria pessoa. O médium pode melhorar a energia da pessoa que está sendo obssediada, naquele momento. Depois que a pessoa sai do terreiro ela deve procurar manter a energia adquirida e sempre reforçar esta energia.


Blog: Qual a postura de vocês com relação ao aborto?


Marluci: A pessoa que pratica um aborto para nós é um assassino.


Blog: E as pessoas que são optantes pelo aborto judicial, por terem sido violentadas?


Marluci: Consideramos da mesma forma. Ela tem o direito de querer ou não criar aquela criança, mas nunca mata-la.


Blog: Vemos tanta maldade e sofrimento pelo mundo, será que a Umbanda e todas as outras religiões podem amenizar isso?


Marluci: Se houver estudo e disciplina entre os médiuns, sim. Porque a Umbanda, espiritismo ou qualquer religião é baseada na fé. Se você tem fé, disciplina e estudo, você será uma pessoa boa.


Blog: Que se pode fazer para atrair as pessoas a frequentar o espiritismo ou a Umbanda?


Marluci: É preciso mais igualdade entre os médiuns. Muitas casas espiritas têm os mentores, os médiuns de passe, etc. Então muitos médiuns acabam se achando desnecessários. O que estes médiuns fazem por fim é se afastarem e procuram uma casa que possam atuar mais e ajudar outras pessoas, procuram um lugar onde a energia delas é necessária e não reprimida. E acabam procurando a Umbanda devido a dinâmica, estão na corrente, participam mais, tem maior contato com os necessitados. Muitos centros espiritas acabam dando maior importância a quem esta na mesa e os outros médiuns tanto faz estarem ali. Se você cochila durante a sessão muitas vezes os mentores nem percebem. Em nosso terreiro isso não acontece porque aqui mostramos igualdade, todos participam e somos todos importantes. Sempre digo a meus filhos: a única diferença entre vocês e eu é que eu comecei a mais tempo, porque espiritualmente somos todos iguais. Pássaros de mesma plumagem sempre voam juntos. Se estamos juntos somos iguais, não posso por defeitos ou qualidades em ninguém porque sou igual, sou do mesmo bando. A mesma coisa acontece nos terreiros. Se você se acha desnecessário, seu zelador dá mais importância a coroados e ricos, você acaba procurando outra casa ou religião.


Blog: Com relação ao uso da Apometria. A maioria dos centros espiritas proíbe o seu uso. Você usa Apometria em suas sessões espiritas?


Marluci: Estamos estudando esse método. Não usamos ainda porque não conhecemos a fundo. No passado era chamado de Desdobramento. A Kamila (Kamila de Iemanjá, filha de santo de Marluci), já teve a experiência de Apometria e sente medo por não estar preparada e eu não posso ajuda-la por também não estar preparada. Falta estudo.


Blog: É possível curar doenças graves como câncer ou AIDS através da Umbanda ou Espiritismo?


Marluci: Eu diria que através da fé. Para Deus nada é impossível. Não há mal que sempre dure ou bem que nunca acabe, se você tem fé o que vai lhe curar não é a religião, é sua fé.


Blog: Qual a mensagem que você deixa para os médiuns que estão começando, despertando para a religião, procurando seu caminho?


Marluci: Três coisas: Disciplina, muito estudo e saber que a Umbanda é caridade, é amor ao próximo. E o próximo não é aquele que esta dentro de casa. O próximo é aquele que bate na sua porta, que você nunca viu, o trate como um irmão, uma pessoa que você ama muito. Peço a todos que vão ter acesso a essa entrevista, que use a Umbanda com o coração, com fé, com amor e tenham a certeza que você será abençoado. A Umbanda só é mal vista porque não levamos adiante nosso estudo, nossa disciplina e nossa moral pura. Só podemos manter a Umbanda levando adiante isso.


Blog: E qual sua mensagem para aos Zeladores e Mentores para melhorar nossa religião.


Marluci: Igualdade e Humildade.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

OBRAS 20/02

























Lenda Cigana

Uma das lendas ciganas, diz que existia um povo que vivia nas profundezas da terra, com a obrigação de estar na escuridão, sem conhecer a liberdade e a beleza. Um dia alguém resolveu sair e ousou subir às alturas e descobriu o mundo da luz e suas belezas. Feliz, festejou, mas ao mesmo tempo ficou atormentado e preocupado em dar conta de sua lealdade para com seu povo, retornou à escuridão e contou o que aconteceu. Foi então reprovado e orientado que lá era o lugar do seu povo e dele também. Contudo, aquele fato gerou um inconformismo em todos eles e acreditando merecerem a luz e viver bem, foram aos pés de Deus e pediram a subida ao mundo dos livres, da beleza e da natureza. Deus então, preocupado em atende-los, concedeu e concordou com o pedido, determinando então, que poderiam subir à luz e viver com toda liberdade, mas não possuiriam terra e nem poder e em troca concedia-lhes o Dom da adivinhação, para que pudessem ver o futuro das pessoas e aconselha-las para o bem.

EXU É ÚNICO E ESPETACULAR!

O Riso



É muito comum que as imagens de Exu estejam gargalhando. Algumas têm expressões sérias ou que sugerem maldade. Mas a maioria está rindo abertamente. O riso largo e solto, embora não pareça, é algo meio tabu dentro do campo religioso. Se observarmos as imagens dos santos nas igrejas, veremos que nenhum está rindo. A maior parte tem a expressão séria e piedosa e só alguns sorriem, apenas ligeiramente.

Exu, no entanto, gosta de rir. Ouvimos, desde crianças, a expressão: “Muito riso, pouco siso”. Em ocasiões pomposas e solenes, não se deve rir. O riso, todavia, faz parte do ser humano. Ele “desopila o fígado”, ameniza as tensões e provoca bem estar.

Nas incorporações dos guias da esquerda é normal os exus e pomba-giras darem sonoras gargalhadas, enquanto dançam e falam.

Embora a obra de Umberto Eco, “O Nome da Rosa”, seja ficção, ela nos traz importantes aspectos do Catolicismo na Idade Média, dos quais eu gostaria de destacar, aqui, a forma interessante como é tratada, no livro e posteriormente no filme, a questão do riso. Trata-se da relutância do velho frade franciscano em permitir o acesso ao Segundo Livro da Poética, de Aristóteles, sobre a Comédia. O horror dele à Comédia e ao riso é tão grande, que envenena as folhas do livro para que, todo aquele que o folheie, morra em seguida. William de Baskerville, o franciscano convidado a fazer uma investigação sobre as mortes que estão ocorrendo no convento, aos poucos vai percebendo a trama. Ao final do filme ele (William de Baskerville), acaba descobrindo onde se encontra o livro. A conversa que ocorre então entre ele, seu discípulo Adso e o velho frade que ocultara o livro, esclarece um pouco porque o riso e a comédia poderiam ser tão perigosos. Quando Adso pergunta por que esconderiam livros como esse, se havia algo errado, o Mestre lhe responde: “Não, Adso, é porque eles contém uma sabedoria diferente da nossa. E idéias que nos fariam pôr em duvida a infalibilidade da palavra de Deus. E a dúvida, Adso, é inimiga da fé. O riso mata o temor e sem temor não pode haver fé. E, se não se teme o demônio, não há mais necessidade de Deus”.

As imagens das Pomba-Giras estão quase sempre gargalhando e quando exus “incorporam-se” em médiuns masculinos, uma de suas principais características é o riso livre e debochado.
A Sexualidade


Os primeiros viajantes europeus a fazerem incursões pelo continente africano – o que já ocorria antes da descoberta do Brasil – encontraram, em observações feitas a templos religiosos, várias imagens diferentes de Exu. Como ele foi sempre considerado o guardião do limiar, era comum encontrar imagens suas às entradas dos templos, cidades, casas ou palácios. Com muita frequência a divindade Exu era representada com um falo mais comprido que o normal e em estado de ereção, por ser o senhor do movimento, aquele que tudo transforma e individualiza, associado portanto ao ato de procriação. Esta qualidade fálica de Exu aparece principalmente entre os daomeanos (Rodrigues, 1988). Em quase toda a África, é muito importante que os indivíduos tenham filhos. Nada de pior pode acontecer a um homem do que tornar-se impotente e à mulher, nada pior do que ser estéril, porque serão os filhos que cultuarão os pais como seus ancestrais. Se alguém não tiver a bênção de ter filhos, quem os cultuará depois de morto? Ninguém. Um individuo com o pênis ereto, pronto a fecundar uma mulher e dar origem a outro ser, é algo muito positivo. Exu, sendo o deus da procriação, um deus fálico, era assim representado, iconograficamente.

Creio não ser difícil imaginar o impacto causado nos viajantes europeus, brancos e cristãos, ao se depararem com essas imagens de Exus fálicos. No cristianismo, bem como em outras religiões, é dada uma ênfase muito grande à castidade (tanto masculina quanto feminina). É fácil supor o choque causado pelas imagens representando a divindade com o falo ereto. Era algo frontalmente diverso dos valores tradicionais cristãos. Desconhecendo completamente a cosmovisão africana e tendo como única medida apenas os seus próprios valores, Exu foi facilmente identificado como algo diabólico. Só o demônio poderia estar ali, com aquele comprido falo ereto, coisa tão terrível para o referencial cristão, que guarda ciosamente sua sexualidade e toda a decorrente exuberância advinda dela.

A ligação com demônio, portanto, já existia desde essa época. A tese de que a África era uma terra da maldição, perdição e perversidade já era defendida por muitos teólogos da Igreja Católica, entre os quais o Padre Antonio Vieira.

Quando os escravos africanos chegaram ao Brasil, tão desvinculados de seu universo cultural, em terras tão estranhas e em condições tão difíceis, apegaram-se profundamente, como “nicho de resistências”, no dizer de Trindade (1985), ao seu orixá mais importante, Exu.

Os senhores brancos certamente perceberam isto. Começou então um processo gradativo que objetivava a total degradação de Exu. Era preciso compará-lo frequentemente ao diabo, o inimigo número um de Deus, na cultura ocidental. Não é tão difícil lançar uma idéia. Por mais absurda que seja, se ela encontra terreno fértil, espalha-se como as ervas daninhas.

Era preciso fazer com que os escravos fossem, aos poucos, acreditando que a única coisa boa que ainda tinham, na verdade era uma coisa má, diabólica e maldita.

A sexualidade, no sapiens, transcende em muito a dos outros animais. Assume um caráter excepcional, para o sapiens, muitíssimo mais complexo do que o é para qualquer outro ser da escala animal.

Não se restringe a cópulas periódicas e à perpetuação da espécie, ao contrário, ela ultrapassa em muito esses limites. Permeia toda a vida dos homens e das mulheres, transcende nos gestos e nas palavras que pronunciam, nos seus atos mais cheios de ternura mas também nos mais vis. Envereda por caminhos estranhos e perversos e por desvios histéricos e fanáticos. A sexualidade pode tornar-se perigosa na mente de um psicopata, assim como pode parecer inocente numa poesia pueril.

Lembrando Morin, a própria institucionalização da família e a consequente regulamentação da sexualidade gerarão uma série de problemas internos, geralmente esquecidos pela Antropologia, mas muito bem desvendados pela Psicanálise, que tornarão a vida afetiva dos indivíduos e suas relações interpessoais extraordinariamente complexas.

Para ele: Vidas vão ser fulminadas, martirizadas, transfiguradas por desejos insensatos, amores dementes, encontros furtivos e, a partir de então, cada vida será dupla, com sua parte imersa, cada sociedade viverá sua vida dupla, sua vida oficial e sua vida crônica.(Morin, 1975)

Desnecessário seria dizer, mas Exu, segundo sua mitologia, com toda a certeza, apropriar-se-á (ou farão com ele se aproprie?) dessa parte imersa do indivíduo, dessa sua sexualidade subterrânea, que Morin descreve tão bem.

Exu, em muitas de suas formas, avatares, nomes, roupas, expressões faciais, representa claramente essa sexualidade tão desvairada. E o chamado “exu feminino”, a Pomba-Gira (uma corruptela da palavra Bombojiro, que é como os Bantu chamam Exu), é a própria expressão da mulher encarnando um tipo de sexualidade pervertida.

Como a sexualidade feminina foi sempre muito reprimida no Ocidente, a Pomba-Gira representa justamente essa “sombra” da mulher. Esse lado ciosamente escondido. O lado exuberante, sensual, debochado, não é bem visto numa mulher. A Pomba-Gira assimila-o e o expõe sem receios.
A Morte



A consciência da morte é, para o homem, o mais cruel e terrível de todos os enigmas. O ser e não-ser, ao mesmo tempo, é algo inimaginável. Os ritos funerários, o cerimonial feito pelos parentes da pessoa morta, sempre foram e são até hoje, objeto de estudo de antropólogos, sociólogos e psicólogos. É, certamente, o objeto maior da atenção de religiões e religiosos de todas as culturas. O homem não aceita a morte como fato consumado. Já alguns primatas, como o chimpanzé por exemplo, parecem não aceitá-la da mesma forma que os outros animais.

Essa questão do “reconhecimento” da morte como algo inevitável e irreparável, que acontecerá fatalmente a todos e a não aceitação dessa mesma morte, é tratada na obra de Edgar Morin. Ele observa que os mais antigos túmulos conhecidos são do homem de Neandertal, que já era sapiens. Algumas destas sepulturas apresentam vestígios de pólen sobre o cadáver, o que sugere que o morto teria sido colocado sobre uma “cama” de flores. Outras mostram que ao lado dos despojos eram colocados utensílios domésticos, armas e comida. Ora, tudo isso nos mostra claramente que já havia aí, não indícios de espiritualidade, mas uma não aceitação da morte como fato consumado e crenças numa transmortalidade, seja na forma de sobrevivência da alma ou de reencarnação. (Morin, 1975:101,102,103)

Existem muitos nomes e significações ligados a Exu e a Pombo-Gira, mas a maior parte desses nomes está, sem dúvida, associada à morte. Alguns autores citam Omolu (ou Obaluaiê), juntamente com Exu, como os senhores da Morte e do Mal. Temos então: Exu Caveira, Exu Tata Caveira, Exu Omolu, Exu do Cemitério, Exu Calunga, (calunga pequena – cemitério, calunga grande – o mar), Exu Sete Cruzes, Exu Sete Covas, Exu Catacumba, Exu Sete Sombras, Exu Seu João Caveira, Exu Calunguinha do Mar. Pomba-Gira das Almas, Pomba-Gira da Calunga, Pomba-Gira do Cruzeiro. Todos estes nomes e muitos outros, referem-se sempre a cemitérios, morte, túmulos e covas.

Sendo a morte sempre algo em que não se gosta de pensar, dói demais, nada melhor do que ter alguém para carregá-la e talvez conseguir até afastá-la o mais possível, pois Exu tem também poder sobre ela. Assim como ele é o Grande Senhor da Vida e do Movimento ele também é o da Morte (Ikù), que é a cessação de todo o movimento. Como guardião dos limiares, ele é também o “dono” do portão do cemitério.

Como vimos o grande e angustiante conflito existencial do ser humano, que é a morte, encontra em Exu um fantástico representante.

Acredito que, com este estudo sobre as várias representações de Exu, não fica difícil perceber que ele, na verdade, assimilou e catalisa, hoje, alguns dos mais importantes aspectos dos lados sombrios, apavorantes e inaceitáveis da criatura humana.
O Espaço


Seus nomes comumente afirmam que ele é o “controlador dos destinos”, o “senhor dos caminhos” e, por conseguinte, é o dono da encruzilhada e o dono do limiar. Estes títulos – ou atribuições – apesar de terem suas origens nos tempos míticos da velha África, são atributos que ele mantém até hoje na Umbanda e mesmo na imaginação popular. Monique Augras (1985), refere-se com pormenores acerca da periculosidade do conflito existencial que é o espaço, para os seres humanos. Aliás, não só para estes, como também para a grande maioria das outras espécies animais. O espaço transcende os limites impostos pela nossa própria pele. Nosso espaço não é só aquele ocupado pelo nosso próprio corpo. Ele vai muito além. Ele é também nossa casa, particularmente nosso quarto, nosso escritório ou consultório, nosso carro, nossa rua, nosso bairro, nossa cidade. É em virtude de questões vinculadas à posse de espaços territoriais que são travadas a maior parte das batalhas e guerras nas quais se envolvem países, nações e agrupamentos humanos.

Exu rege os caminhos e os espaços. Como vimos, através das citações de Monique Augras, não é difícil constatar a importância da questão do espaço. Assim, não será também estranho que, dentro da filosofia do Candomblé, somente um orixá tão importante quanto Exu fosse capaz de reger algo tão complexo quanto o espaço. A encruzilhada é dele, pois é o lugar onde dois espaços se cruzam. Ela não precisa, apesar do nome, ser necessariamente em forma de cruz, ou seja, abrindo a possibilidade de quatro escolhas. Pode ser em forma de ‘T’ ou, como nas antigas cidades gregas, de ‘Y’. Aí, as opções ou escolhas podem ser em número de três. Ou pode ser uma “encruzilhada” que permita uma, entre duas possibilidades.

(…) e lembramos a associação que se faz de Esù e as encruzilhadas, representação por excelência da multiplicidade de caminhos e da geração e da imposição de alternativas e possibilidades. Destino e encruzilhadas estão, sem dúvida, intimamente ligados. Como Inspetor Geral de Olodunmare, ao mesmo tempo em que está em todos os lugares e em todas as formas criadas, Esù está simbolicamente representado na encruzilhada, onde assiste e acompanha todas as escolhas feitas pelos homens na sua caminhada pela vida. (Ribas, 1997)

A soleira da porta é guardada por ele também, pois o portão ou porta de uma casa é justamente o lugar onde termina um espaço coletivo – o “espaço da rua” – e começa um espaço pessoal. Ou vice-versa. O espaço da rua é um espaço de todos, teoricamente um lugar mais perigoso. O espaço pessoal é menos perigoso, fecha-se a porta e se estará ao abrigo de ladrões e pessoas perversas. Ao abrigo das intempéries e dos olhares alheios. O limiar guarda simbolismos existenciais profundos e complexos.

Nada mais justo que uma divindade importante como Exu, tome conta dele. Tanto em várias lendas e mitos quanto em contos de fadas encontramos momentos em que os guardiões dos limiares são criaturas perigosas e ferozes.

Mircea Eliade (1992) fala-nos acerca dos achilpa, uma tribo Arunta (Austrália). Segundo suas tradições um ser divino, Numbakula, nos tempos míticos havia sacralizado o tronco de uma árvore da goma (kauwa-auwa). Este tronco tornou-se um poste sagrado e os achilpa levavam-no sempre consigo, pois escolhiam a direção que deviam seguir dependendo da inclinação do poste. Tendo este uma vez se quebrado, toda a tribo foi tomada de grande angústia; vaguearam durante algum tempo e finalmente sentaram-se no chão e deixaram-se morrer.

Creio que este exemplo é extremamente notável para demonstrar a importância, para o ser humano, em demarcar o seu espaço. Hoje, em nossa cultura, “marcamos” nossos espaços, através de escrituras de compra e venda, por exemplo. Assim, esta casa é minha, pois eu a comprei. Eu tenho a escritura que comprova que ela é minha. Todavia, em outras culturas, não é assim tão simples a legitimação do espaço. Como vimos, para os achilpa, é um poste sagrado que, dependendo do lado para onde ele se inclina ou pertence estático, torna aquele determinado local como sendo legitimamente habitável para eles e seus rebanhos.

Para os povos indígenas das Américas, sempre pareceu muito estranho que os europeus quisessem provar-lhes através de um simples papel, que aquela terra era deles e não dos índios.

O espaço sagrado é sempre diferenciado do espaço profano.

Assim, os templos e as Igrejas são lugares sagrados. Na Umbanda, o conga é o “eixo cósmico”, pois é ali que, durante as giras, as entidades vão descer e incorporar-se nos médiuns.

Geralmente, há rituais que demarcam as fronteiras entre o espaço sagrado e o profano. Nas Igrejas Católicas, ajoelhamos e fazemos o sinal da cruz, antes de entrar. Nas mesquitas muçulmanas, os homens tiram os sapatos antes de entrar no templo. Nas Tendas Umbandistas, pede-se que os fiéis, antes de tomar passes ou fazer consultas, tirem os sapatos, o relógios, jóias e óculos.

No Candomblé, Exu rege os espaços mas, essa característica, de certa forma passou para a Umbanda de modo muito enfático. Ele rege o limiar, conforme já foi dito antes. Mesmo nos centros umbandistas mais “puxados” para o Kardecismo, no portão de entrada, se não houver uma imagem de Exu, há pelo menos uma oferenda a ele: um copo de aguardente, um charuto aceso e uma vela preta (ou vermelha) acesa.

Ao pensar em todas as batalhas, guerras e conflitos políticos que já abalaram o mundo, vê-se que, quase sempre, eles acontecem em virtude da posse de determinados territórios.

Assim, Exu torna-se, então, Exu Vira Mundo, Exu Tranca Ruas, Exu Sete Encruzas, Exu Sete Porteiras, Pomba-Gira Rainha do Cruzeiro, Pomba-Gira da Praia, Exu da Encruzilhada.



Escrito por Mãe Mônica Caraccio

Isso é o ENCANTO DE UMA GIRA!!!

Axé pessoal! Sexta feira é o dia da semana que muitos Terreiros abrem suas portas e suas giras para atender centenas e mais centenas de pessoas e milhares de espíritos desencarnados.

Como para algumas pessoas esse dia é “somente” um dia de Gira, gostaria de propor um pensar juntos sobre o que representa a “Abertura da Jurema”.


Afirmo e reafirmo que viveríamos muito mais felizes, alegres e plenos se aprendêssemos fazer de cada momento, um Momento Único, e sendo assim, penso que a Umbanda teria um Valor mais real, com seus médiuns muito mais vibrantes e fiéis se conseguíssemos enxergar Além, se conseguíssemos perceber a importância de cada um e de todos nós para essa religião que só consegue realizar e se manifestar através de nós, se conseguíssemos perceber a grandeza de cada rito, de cada ritual, de cada gira e de cada vez em que a “Jurema é aberta”.


Portanto, se pararmos para pensar um pouco no que acontece em um dia de gira perceberemos uma religião única, uma oportunidade única e um dia único, cheio de momentos únicos.


Perceberemos a importância de cada ação, de cada “pequeno” ato, de alguns “detalhes” que, com certeza, influenciam diretamente em nossa vida.


Perceberemos ainda que, infelizmente, muitas vezes nos deixamos influenciar pela inércia, pelo esquecimento e pior, por um cotidiano frio e calculista, perdendo assim todo o Encanto, todo o Valor e todo o Poder Realizador de uma gira, deixando que a ‘Abertura da Jurema’ se reduza em um simples ato de “Esperança de Fé”.


Vejam alguns pequenos “detalhes” de um dia único, de um dia que faz a diferença na vida de muitas pessoas e milhares de espíritos.


Para muitos dos consulentes esse dia é um dia de expectativa, muitos passam o dia olhando para o relógio e preocupados em não faltar ou atrasar. Se programam desde cedo, conversam com os familiares, combinam horários e pontos de encontros. Afinal, é DIA DE GIRA!!!


Muitos passam o dia pensando no que irão falar, pensando no que pedir e no alívio que terão depois dos poucos minutos de prosa.


Alguns ainda passam o dia torcendo e até ‘pedindo’ para falar com determinada Entidade, outros torcerão para que a gira seja com sua Linha preferida, mesmo porque, cada Linha tem uma energia específica, com formas de agir e de nos atingir diferentemente – os Caboclos, por exemplo, agem com uma encantadora racionalidade e sabedoria que nos levam a agir cheios de ‘certezas’ nas Forças Supremas; os Pretos Velhos, mais sensíveis, apaziguadores e tolerantes, quase sempre nos fazem chorar e refletir sobre nós mesmos; já do ‘povo da Bahia’, – que alegria! -, recebemos descontração, magia e gingado para lidar com os percalços da vida diária. Com os Exus então, encontramos, entre tantas coisas, a verdade dura, crua e, muitas vezes, dolorida… Isso é o Encanto de uma Gira!!! Necessidades, merecimentos, realizações, bênçãos, esperança e amor tudo junto, manifestado em um ‘estalar’ de dedos, em um ‘bater cabeça’, em um ‘pensar’ puro e em um ‘sentir’ junto.


Os médiuns então terão um dia mais que especial, cuidarão de suas roupas, guias e objetos de uso em gira. Tudo deverá estar impecável, pois a responsabilidade é grande.


Para muitos, os preparos começarão no dia anterior, com defumação e banho de ervas, farão suas Firmezas pedindo toda proteção para o trabalho do qual irão participar e pedirão ainda, ajuda para que sejam bons instrumentos e manifestadores da Luz Divina.


Também cuidarão do horário com muito mais atenção para não se atrasarem, pois sabem que muitos dependem deles.


Procurarão ter um dia sem stress e sem grandes tumultos, atentos à alimentação e às atitudes de forma muito mais acentuada. Afinal, é DIA DE GIRA!!!


Alguns terão pequenas tonturas durante o dia, outros terão uma sonolência descontrolada, perceberão ‘presenças’ e sentirão vultos, além da aproximação das Entidades. Isso é o Encanto de uma Gira!!! É servir, agir, ser, estar, se preparar, se preocupar, se doar, sair mais feliz do que chegou, mais pleno, mais encantado e já com saudades.


Já a Mãe ou o Pai Espiritual terão um dia que exigirá muita concentração e disciplina. Terão que firmar todo terreiro, assentar e alimentar todas as Forças, olhar, cuidar e sentir todos seus médiuns. Perceber os ataques, a energia da corrente, a presença dos Guias para Trabalho, a influência dos Orixás, a permanência das legiões do Bem, do Mal e dos espíritos enfermos que são naturalmente direcionados para tratamentos durante os trabalhos. Cuidarão do antes, do durante e do depois dos trabalhos religiosos, terão que fazer tudo com muita excelência e competência.


Nesse dia especificamente, serão os primeiros a acordarem e os últimos a dormirem. Afinal, é DIA DE GIRA!!!


Claro que ainda terão que cuidar de suas firmezas pessoais, de sua família, do seu trabalho diário e ainda se preocuparão em arrecadar verbas para continuar mantendo as despesas do Terreiro em ordem. Isso é o Encanto de uma Gira!!! É fazer o bem sem olhar a quem, é saber discernir, é enxergar Além, é fazer a diferença, é fazer diferente, é cumprir a missão, a função e a obrigação agradecendo com o coração, com a mente e com a alma cheia de verdade.


E para o Astral então, o trabalho é muito maior! São falanges e mais falanges de espíritos iluminados que literalmente “vêm” para nos ajudar.


São grupos de espíritos protegendo o Terreiro durante todo o dia e durante toda a noite, auxiliando a gira, fortalecendo a corrente mediúnica, segurando a porteira e sustentando a “Abertura da Jurema”. Outras falanges protegem e acompanham os médiuns da corrente durante todo o dia, pois é fato que nunca estamos sozinhos. Os consulentes também são cuidados, também têm o auxílio de espíritos iluminados, também são guardados, direcionados e livrados dos ataques de espíritos inferiores que muitas vezes não os querem dentro de um Terreiro. Portanto, todos são cuidados, assistidos e abençoados durante todo o dia. Afinal, é DIA DE GIRA!!!


E sabemos que em dia de gira, não entra em nossa gira quem não tem permissão da Lei Divina, ou seja, estar em gira, participar de uma gira, vivenciar uma engira é uma grande benção! Um grande privilégio!


E isso é o Encanto de uma Gira!!! É saber que os Guardiões da Lei Divina são rigorosos, que estão enxergando Além, que estão ouvindo nossos pensamentos muito mais do que nossas palavras, que se assentam em nossos Terreiros como se assentam em torno de Ogum e que manifestam o Poder Divino Realizador não apenas no momento em que o Pai Espiritual clama aos Orixás a permissão para a Abertura da Jurema, mas em todos os momentos que clamamos por Paz, Amor e Compaixão.


Pois bem, são esses “pequenos detalhes” que fazem a Umbanda ser tão encantadora. Encanto esse, que nos faz sorrir, que nos faz querer mais, que nos alimenta e nos faz ressurgir para uma vida de realizações.


E será a percepção desses “Momentos Únicos” que transformarão nossa vida religiosa em uma vida mais feliz e plena.


E serão esses “Momentos Únicos” que nos transformarão em seres humanos melhores e que transformarão a “Esperança de Fé” em CRENÇA REAL.


É!… Enxergar ou vivenciar a Umbanda com todo seu Encanto não é fácil, precisa ter Olhar de Poeta, precisa ter Fé naquilo que está Além de nossos olhos. Precisa confiar, não se preocupar e não se incomodar. Precisa ter leveza, doçura e gentileza. Precisa querer, ser e estar em Paz e Pleno.




Salve Nossa Gira!




Salve Nossa Engira!




Salve a Abertura da Jurema!




Salve Nossa Umbanda!




Salve a Minha Umbanda!




É por Ela que vivo, trabalho e ajo, cada vez mais em Paz, Plena e Encantada.




Feliz sexta feira a todos afinal, É DIA DE GIRA!!!

domingo, 13 de fevereiro de 2011

UM EXEMPLO! UM PRESENTE! UMA ESPERANÇA!

Quero aproveitar e falar um pouquinho de uma mulher que não somente fez história, mas também modificou a história de vida de muitas pessoas do Candomblé e por que não dizer, de nós umbandistas. Afinal, sabemos que a Umbanda é uma religião tipicamente brasileira, mas que recebe influências de várias outras religiões, principalmente do Candomblé que, por sua vez, tem influência direta do povo africano.


E é sob tantas influências, histórias e vidas que encontramos uma personagem que, caso ainda estivesse nesse plano, estaria completando hoje 117 anos. Falo de Maria Escolástica da Conceição Nazareth, a querida MÃE MENININHA DO GANTOIS, que liderou seu terreiro por 64 anos até seu desencarne aos 92 anos.

Mãe Menininha do Gantois dedicou totalmente sua vida ao candomblé, nasceu “abençoada” para manter acesa a crença de seus antepassados que vieram da África, levou o nome do Candomblé e de seu terreiro – Ilê Iya Omin Axé Iya Massé, que em ioruba significa “Casa da Mãe das Águas” e que ficou conhecido como Gantois – à terras improváveis, à cabeças incrédulas, à fama, ao tombamento do terreiro, mas nem por isso revelou qualquer fundamento de sua religião, nem por isso lamentou ou se locupletou através da fé alheia ou de sua própria crença.

Foi iniciada aos oito meses e iniciou sua primeira filha aos dois anos de idade raspando a cabeça de uma mulher de mais de 30 anos. Com cinco ou oito anos participava ativamente dos rituais de iniciação, muitas vezes até altas horas da noite. E afirmava: “Minha avó, minha tia e os chefes da casa diziam que eu tinha que servir. Eu não podia dizer não, mas tinha um medo horroroso da missão. Era uma consciência absoluta do que me esperava: passar a vida inteira ouvindo relatos de aflições, doenças e lástimas e ter que ficar calada, guardar tudo para mim, procurar a meditação dos encantados para acabar com o sofrimento. Tudo exige abnegação.”

Waldemir Rego, estudioso da cultura afro-baiana, frequentador do Gantois, afirmou que: “Menininha era dona do maior acervo de conhecimento litúrgicos do ritual afro do país” e destacou “ela tornou-se um verdadeiro patrimônio pela devoção aos seus deveres de sacerdotisa, tendo conseguido manter a sua casa de candomblé dentro da maior pureza possível, sem se deixar tragar pela sociedade de consumo”.

Ela foi tão ilustre que as palavras canzuá e ganzuá, que muitas vezes são mencionadas pelos queridos guias espirituais de nossa Umbanda, é uma corruptela de Gantois.

Seu prestígio não se restringiu somente ao sagrado, influenciou importantes intelectuais e pesquisadores, aliás alguns deles se encantaram tanto com a religião e com o carinho de Mãe Menininha que assumiram algumas responsabilidades religiosas como foi o caso de Nina Rodrigues (médico legista, psiquiatra, professor e antropólogo), de Manuel Querino (intelectual, fundador do Liceu de Artes e Ofícios da Bahia e da Escola de Belas Artes, escritor), de Estácio de Lima (médico legista), de Arthur Ramos (médico e antropólogo), de Nestor Duarte (professor da Faculdade de Direito), de Hozannah Oliveira (professor da Faculdade de Medicina da Bahia) e muitos outros que tornaram-se ogãs do Gantois.

Muitos políticos e artistas também não resistiram a todo esse encanto e, antes de qualquer atitude mais expressiva em suas carreiras, iam pedir a benção e os conselhos dessa sábia Mãe.

Jorge Amado afirmava: “Na Bahia existe uma mulher que não possuindo nada, não sendo rica, não tendo nenhum posto, não mandando na política, não sendo cardeal, não sendo revestida de nenhum desses falsos poderes, detém um poder real que provém do povo, provém dela ser uma expressão, provavelmente, hoje, a maior do povo baiano”.

Marlene França, atriz e filha da casa desde 1973, por diversas ocasiões testemunhou a acolhida de Mãe Menininha aos mais necessitados quando mandava: “prepare um banho, bote uma esteira para ele dormir, dê-lhe um prato de comida…”. Marlene garante: “vi pessoas com sérios problemas de drogas ou álcool chegar ao Gantois trazidas pela família e depois de um tempo no terreiro se reequilibrarem, vi muitas coisas boas acontecer nas mãos de minha mãe.”

Maria Bethânia foi levada à mãe Menininha pelas mãos de Vinicius de Moraes e apaixonou-se imediatamente: “ela me recebeu com aquela lindeza. Quando Vinicius entrou, mandou buscar uma cadeira para ele sentar. E, para mim, apontou o chão e me mandou sentar ali. Que maravilhosa! Não me lembro nada mais suave do que ela, só mesmo a expressão de Nossa Senhora”, afirma.

Caetano Veloso definiu-a como “a figura mais importante da religião ioruba no Brasil e, em razão disso, uma das figuras mais importantes na formação da cultura brasileira. Um dos maiores ensinamentos dela foi a superação do medo”.

Dorival Caymmi, que por amor a ela fez a música “Oração de Mãe Menininha”, foi somente mais um entre tantos e tantos outros que se beneficiaram desse presente de Olorum a nós que foi Mãe Menininha.

Um exemplo de mulher, de atitude, de determinação, de amor aos Orixás e principalmente submissão à missão.

Foi uma mulher simples que abraçou de tal maneira a sua fé que acreditava com fervor no poder nascido de seu pacto com os deuses da natureza, da bondade e da justiça. Ela se alimentava dos Orixás, ela vivia os Orixás, ela falava, cantava e dançava com orgulho aos Orixás.

Seu universo era próprio e sua função, obrigação e missão eram claras como as águas de Oxum.

E afirmava:

“Esta obrigação é árdua, não é coisa que se pegue com uma mão só.”

“Quando meu tio pôs sua mão sobre a minha e colocou o axé, a emoção que senti jamais poderei descrever. Chorei todas as lágrimas do meu corpo.”

“É a minha missão. Eu não posso explicar. E o senhor não iria entender.”

“Eu sou muito conformada, é difícil eu me zangar, principalmente com os Orixás. Com eles e com Deus não me aborreço. Tudo que a gente passa é porque tem que passar.”

“Antigamente, nós tínhamos mais fé nos Orixás, mais respeito também. Hoje, mesmo nas pessoas que vêm aqui, eu não descubro aquela fé viva de antes. Para mim, essa gente vem com mais curiosidade do que fé.”

” As separações são muitas, tantas que nem a Justiça toma conhecimento.”

“E sabe por que as pessoas têm problemas hoje? É falta de fé em Deus. E o castigo está aqui na terra. Quem não tem fé só pode ser castigado.”

 

Mãe Menininha do Gantois


Que essas poucas palavras sirvam de INSPIRAÇÃO para fazermos uma Umbanda Melhor.


Que essa bela canção interpretada por Maria Bethânia, Caetano Veloso e Dona Canô, e toda sua expressão, seus gestos, movimentos e olhares nos ENCANTEM de tal forma que faça nosso olhar se modificar.


E que atitudes como a de Mãe Menininha nos sirvam de EXEMPLO ‘De Vida’, ‘De Verdade’ e ‘De Obra por Amor e Fé’.


Saravá a todos e muito Axé no coração.



Base de pesquisa e trechos retirados do livro:

Mãe Menininha do Gantois – Uma Biografia

de Cida Nóbrega e Regina Echeverria
 
 
Oração da Mãe Menininha
(Dorival Caymmi)



Ai! minha mãe

Minha ‘’mãe menininha’’

Ai! minha ‘’mãe

Menininha’’ do Gantois

A estrela mais linda, hein?

- Tá no Gantois

A beleza do mundo, hein?

- Tá no Gantois

E a mão doçura, hein?

- Tá no Gantois

O consolo da gente, ai?

- Tá no Gantois

A Oxum mais bonita, hein

- Tá no gantoi

Olorum quem mandou essa filha de Oxum

Tomar conta da gente e de tudo cuidar

Olorum quem mandou eô ora iê iê ô