quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

17 de dezembro - Salve Xapanã!



Xapanã ou Omulu, é o Orixá Cósmico assentado no pólo negativo (absorvedor) da Linha da Geração, que é a sétima Linha de Umbanda, onde polariza com o Orixá Universal Yemanjá.
Enquanto Yemanjá é a Regente Divina da Geração, Pai Omolu é o Regente do equilíbrio na Criação Divina.
Yemanjá é a Mãe da Vida; é maternal, mas autoritária. E Omolu é o Guardião da Vida; é rigoroso, mas compreensivo, ainda que não o demonstre.
Yemanjá é a Irradiação Divina que rege sobre a Vida e a Geração dos seres, das criaturas e das espécies. É a Grande Mãe, é o aspecto Mãe do Criador, é a Mãe de todas as Águas, simbolizada pelos mares e oceanos. Quem se coloca de forma reta sob a Sua Irradiação começa a vibrar o amor maternal, que aflora e se manifesta com intensidade.
As Irradiações de Mãe Yemanjá atuam de forma contínua sobre toda a Criação, estimulando a criatividade e o amparo à vida. Seu magnetismo é irradiante e Suas ondas são retas.
Em contrapartida, o Orixá Omolu paralisa tudo aquilo que atenta contra os Sentidos da Vida. É a Presença de DEUS garantindo a Vida e a Geração. É a profundidade da terra. As Irradiações do Sagrado Pai Omolu garantem o equilíbrio da Criação, pois atraem para o Seu campo Cósmico todos os seres que se desequilibraram e passaram a atuar de forma desvirtuada, atentando contra qualquer dos Sentidos da Vida. O magnetismo de Omolu é absorvente e Suas ondas são alternadas.
Omolu é também o Orixá que rege a morte física, ou seja, o instante seguinte à passagem do plano material para o plano espiritual (desencarne).
Mas Omolu não traz a morte, como alguns parecem imaginar. Na verdade, Ele representa “a morte” daquilo que atenta contra o Sentido da Vida e da Geração; o que é bem diferente. E Omolu também não traz a doença. Ele traz, sim, “a morte” da doença, do desequilíbrio e do vício, para viabilizar a restauração da saúde geral dos seres desvirtuados e desequilibrados (saúde espiritual, moral, mental, emocional e física).
Omolu representa “a morte” no sentido de trazer o fim a um estado de doença ou de desequilíbrio; e sempre para a preservação da Vida, no sentido mais elevado da palavra. Ele é um Orixá da Cura, portanto.
Quem age de má-fé para com o semelhante está “matando” a Fé no outro. Quem engana, trai ou age de forma negativa no campo do Amor está “matando” o Amor no outro. Quem usa do Conhecimento ou do dom da palavra para propagar mensagem mentirosa está divulgando a ignorância e “matando” o dom do Conhecimento. Quem é deliberadamente injusto para com o semelhante está “matando” o Sentido da Justiça. Quem de forma deliberada viola o direito do outro está “matando” o Sentido da Lei. Quem impede que o outro evolua está “matando” o Sentido da Evolução. Quem de alguma forma atenta contra a vida do semelhante está “matando” o Sentido da Geração. Tudo isso é atraído para o campo de Pai Omolu, que irá acionar o Seu Fator Paralisador sobre aquele ser desvirtuado, ativando uma de Suas Linhas de Esquerda, que será deslocada para “cobrar a dívida”. Não é raro que pessoas alcançadas por esta atuação acreditem “que “têm algum trabalho feito”, alguma “demanda” etc., esquecidas de que estão, isto sim, é respondendo perante a Lei e a Justiça Divinas pelos seus próprios atos.
O ser que daquela forma se desvirtuou é paralisado nas suas ações negativas, tanto para a preservação da própria vida e evolução quanto para o equilíbrio da Criação como um todo. Este é o Divino Mistério de Pai Omolu, O Sagrado Guardião da Vida.
O Mistério Omolu transcende a tudo, vai além do que possamos imaginar. Mas algumas lendas o limitaram a alguns de seus aspectos vistos como punitivos, tornando-o temido por muitos.
Se Omolu rege sobre o cemitério e sobre os espíritos dos mortos, é porque esses espíritos atentaram contra a vida ou algum dos seus Sentidos. Logo, só deve temê-LO quem proceder de forma desvirtuada.
 “A cada um, segundo o seu merecimento”, diz a Lei Maior. E o Mistério Omolu aplica este princípio em seu aspecto negativo ou absorvedor. Ou seja, aplica-o quando o espírito atuou de forma desvirtuada e atraiu para si a força corretiva da Lei Maior, para então paralisar e esgotar seus vícios e desequilíbrios.
Podemos dizer: “A cada um, segundo seus atos”. Sendo positivos, que seus autores sejam conduzidos à Luz da Vida. Mas se foram negativos, que sejam levados para os sombrios domínios “da morte dos sentidos e dos sentimentos desvirtuadores da vida”.
Omolu encaminha para a faixa vibratória correspondente aquele espírito que muitas vezes atentou contra a Vida e a Geração, para “secar” os sentimentos e sentidos desvirtuados que deram origem às suas atuações degeneradas. Esgotadas todas as negatividades daquele ser, então ele estará pronto a recomeçar sua caminhada evolutiva.
Omolu é o Guardião Divino dos espíritos caídos. E é preciso muito AMOR para recolher os caídos. É preciso muito AMOR para “não desistir” dos caídos. É preciso muito AMOR para resgatar, abraçar, velar e regenerar um ser que deliberadamente se envolveu na podridão da maldade. E esta é a natureza do AMOR do Divino Pai Omolu por nós. Ele é o “último abrigo” dos caídos, a esperança da regeneração e do recomeço. Como temer esta Divindade? Não!
Não devemos temer Pai Omolu, mas sim reverenciá-LO como o Grande Velador da Vida, que atua no silêncio das eras para preservar a Vida e a Geração, garantindo o equilíbrio de toda a Criação. Ao envolver nas Suas Irradiações os seres negativados, Pai Omolu também está protegendo a existência daqueles que caminham na via reta, não podemos nos esquecer disso. Ele é quem garante “a eficácia”, digamos assim, das Divinas Irradiações de Mãe Yemanjá, como o Seu Par Divino complementar.
Nas primeiras sociedades tribais, o ser humano temia tudo aquilo que não compreendia: o ambiente inóspito, as bruscas mudanças climáticas, a aridez da terra, o sol ou a chuva excessivos, a escassez de alimentos, as doenças que não conhecia e a própria morte. Via, nessas dificuldades, “a presença de deuses terríveis que vinham castigá-lo”. Sentia-se, talvez, ”separado” do Divino, submetido e subjugado por forças que não compreendia. Mais tarde, quem sabe, atribuir caracteres humanos punitivos e até vingativos aos seus deuses foi um meio de preservar na memória das gerações futuras o culto a algo bem maior do que a existência terrena, já que tudo era transmitido de boca a ouvido.
Seja como for, o tempo passou. Hoje temos recursos para compreender muitos desses fenômenos e contorná-los. A nossa vida não é mais uma luta por sobrevivência. Estamos despertando para a compreensão de um novo existir. Doença e morte não podem mais ser vistos como “inimigos” ou “castigos”, pois são apenas estágios, são passagens, são caminhos para outras condições, situações e realidades. A continuidade da vida além da morte física já foi comprovada por várias maneiras. Ciência e Religião começam a andar de mãos dadas, cada uma no seu campo específico, na busca de explicações para muitas coisas que antes pareciam “sobrenaturais”. A Ciência já comprovou que tudo é energia; o que chamamos de matéria são apenas formas de arranjos das energias. Vida e morte são duas faces de uma mesma moeda, são arranjos, são transformações da Energia Criadora. Alguma coisa “morre” para se tornar em algo maior, mais complexo, mais aperfeiçoado, mais sutil. A “morte” é apenas o despir-se de um invólucro grosseiro, para se obter vestimenta mais elevada. O espírito que reencarna “morre” no plano astral; e o que desencarna “morre” no plano das formas para voltar ao plano espiritual.
A Vida prossegue, sempre. E todo esse processo Divino é regido pelas Divindades de Deus, que na Umbanda Sagrada chamamos de Orixás. Todos os estágios da nossa existência são regidos pelos Sagrados Orixás. Precisamos nos dedicar a compreender as atuações dessas Divindades, num exercício de fé raciocinada, para despertarmos a nossa Essência Divina e nos colocarmos como parte viva e inseparável desse Todo que é Deus e a Criação. Tudo é Deus, tudo é regido por Deus, por meio dos Sagrados Orixás. Não temos razão para temê-LOS, mas sim para reverenciá-LOS e amá-LOS, como nossos Pais e Mães Divinos.
O Orixá Omolu não pode ser temido pelos umbandistas, pois a Umbanda Sagrada nos revela que Ele é o nosso Pai da Vida, que tudo faz para nos preservar dentro das Leis Divinas que regem o Sentido da Vida e da Geração.
Como bem explica Rubens Saraceni, no processo Divino da Vida, Mãe Oxum agrega ou funde o espermatozóide com o óvulo; Mãe Yemanjá é o processo genético que inicia a multiplicação celular; Pai Ogum ordena essa multiplicação celular, que é comandada por Pai Oxóssi, direcionada por Mãe Yansã, equilibrada por Pai Xangô, estabilizada por Pai Obaluayê e cristalizada (num novo ser) por Pai Oxalá.
Neste processo, o Fator Paralisante ou Paralisador gerado por Pai Omolu é fundamental para o equilíbrio da Vida, porque Ele é o Mistério Divino que vai atuar onde houver uma geração ou criação desvirtuada ou desvirtuadora. Ele paralisa e esgota a energia caótica ou a criação degenerada ou viciada.
DEUS Cria e Gera, mas também paralisa a criação que não mais atenda aos SEUS desígnios e paralisa a geração que não atenda à SUA Vontade. Esta Qualidade Divina, representada por Pai Omolu, é um recurso para paralisar tudo e todos que estiverem criando ou gerando em sentido contrário (desvirtuado) ao que Deus estabeleceu como correto (virtuoso). E Omolu guarda para OLORUM (DEUS) todos os espíritos que fraquejaram na sua jornada carnal por se entregarem aos seus vícios emocionais.
Mas Omolu não pune ou castiga ninguém, pois estas ações competem à Lei Divina.  
Os Tronos da Geração (Feminino: Yemanjá; Masculino: Omolu) regem sobre este aspecto da Gênese (toda a Vida, toda a Geração), e não apenas sobre o sexo.
Sabemos que:
Minerais afins fundem-se e dão origem aos minérios;
Elementos afins fundem-se e dão origem a novos elementais;
Energias afins fundem-se e dão origem a novas energias;
Cores afins fundem-se e dão origem a novas cores;
Seres afins (machos e fêmeas da mesma espécie) fundem-se e dão origem a novos seres.
Em todos esses processos, Mãe Yemanjá é a “Mãe da Vida”; e Pai Omolu é o Guardião Divino que paralisa tudo o que atenta contra a Vida, que paralisa todas as criações ou gerações desvirtuadas dos seres, dando estabilidade à Criação. (Do livro “Gênese Divina de Umbanda Sagrada”, páginas 233/236 e 270/272, Rubens Saraceni, Madras Editora, 2005.)
Na Umbanda, Pai Omolu é associado ao planeta Plutão e aos números 12 e 13.
Na Astrologia, Plutão é um astro que provoca atração, mas também repulsa, além de mudanças, alterações, a destruição e a reconstrução de novos ciclos na vida humana.
Na Mitologia, ele representa o inferno, o invisível e o misterioso.
No mapa astral de uma pessoa, a localização de Plutão mostra onde sua alma terá a possibilidade de “morrer para o que é inferior”, para renascer transformada e melhorada. O ser passará por essa “morte” ao descer ao próprio íntimo, para enfrentar seus medos, enxergar seus fantasmas e curar suas feridas internas, fazendo uma opção consciente por tornar-se um profundo investigador de si mesmo e de qualquer situação que possa vivenciar, de modo que possa ir além do que as aparências indicam. É uma espécie de mergulho no inconsciente, que permitirá o despertar da alma. Caso contrário, a pessoa terá de viver com seu lado sombrio, negativo, tempestuoso, destruidor e, às vezes, até vingativo.
Logo, a associação de Pai Omolu ao planeta Plutão evidencia a natureza paralisadora desta Divindade, no tocante ao que é negativo para a vida e a evolução dos seres.
Quanto ao número 12, também associado ao Orixá Omolu, é um número que, em síntese, simboliza um ciclo completo, a ordem cósmica. E isso também está implícito na atuação deste Orixá, que traz “a morte” dos atos que atentam contra a Vida e a Geração, para garantir o equilíbrio da Criação.
O doze é o produto da multiplicação do número três pelo número quatro.
O número três representa o Espírito (essência Divina), a Trindade (Pai/Mãe/Filho; espírito/mente/corpo).
O número quatro representa a matéria, a estruturação material, o plano material.
Então, o número doze simboliza a manifestação do espiritual (3) no plano material (4).  É DEUS que SE manifesta na matéria.
E o número treze, igualmente relacionado ao Pai Omolu, simboliza os processos de transformação (“a morte” do que não serve mais, para um recomeço evolutivo).

História

1-Origens de Omolu.

Na antiga África, havia regiões onde os nomes Omolu e Obaluaiê eram considerados duas qualidades de uma mesma divindade. Era comum chamá-los de Omolu-Obaluaiê e de Obaluaiê-Omolu.
Em algumas tradições, tais nomes designavam duas qualidades da divindade Omolu: Obaluaiê era a designação do Omolu Jovem, mais agressivo; e Omolu era o nome reservado para o Omolu Velho, mais introspectivo e severo.
Em outras, a divindade era Obaluaiê: sua qualidade Jovem era o Obaluaiê, propriamente; e o Obaluaiê Velho era chamado de Omolu.
Havia ainda povos do continente africano que cultuavam Omolu e Obaluaiê como divindades distintas.
Essas diferentes interpretações ainda hoje podem ser encontradas no Candomblé do Brasil, por influência das respectivas matrizes africanas.
Outro nome que na África era associado tanto a Omolu quanto a Obaluaiê é Xapanã (Sànpònná), geralmente reservado como designativo do deus da varíola. Acreditava-se que ele punia os malfeitores com a terrível doença, que na época causou muitas mortes. Por isso, o nome Xapanã era temido e não poderia ser pronunciado; se alguém o fizesse, teria de lavar a boca com mel. Mas existem lendas contando que noutras regiões Xapanã era reverenciado como Curador, e não como um deus temido.
Há uma grande variedade de tipos de Omolu (guerreiros e não guerreiros; de idades diferentes; com ligações ou caminhos com outras divindades etc.), mas resumidos pelas configurações básicas do Velho e do Moço.
São muitos os nomes relacionados a esta divindade, às vezes dentro de uma mesma região. Entre eles, temos: Skapatá, Omolu Jagun, Quicongo, Sapatoi, Iximbó, Igui. Isso indica a existência de mitos semelhantes em diferentes grupos tribais da mesma região. O continente africano era imenso, e habitado por povos de culturas muito diferentes entre si, justificando-se essa variedade de interpretações.
Pierre Verger pesquisou as religiões da antiga África e lá viveu por muito tempo; assim como estudou e vivenciou o Candomblé brasileiro.  Por isso, seus registros e informações são importantes, dentro do tema.
No seu livro “Orixás”, Verger fala da confusão que existe a respeito de Xapanã, Obalúayé, Omolu e Molu, pois em alguns lugares eles se misturam; enquanto em outros são considerados deuses distintos. E que Nanã Buruku é também confundida com eles. 
Verger mostra que em algumas regiões há um sincretismo entre duas divindades: Sànpònná- Obalúayé, que veio do leste (onde Nanã é Nàná-Buruku) e Omolu-Molu (vindo do oeste, onde Nanã é Nàná-Brukung). As duas divindades se juntaram e tomaram o caráter único de Keto. Outra hipótese: seria uma divindade única, trazida por migrações leste-oeste (como as dos Ga, que foram de Benim para região de Accra, durante o reino de Udagbede, no fim do século XII), e que depois foi levada para seu lugar de origem com um novo nome que, inicialmente, era apenas um epíteto.
Em Tapá, a divindade Xapanã (Sànpònná) seria o correspondente a Omolu. Mas este nome também aparece associado à divindade Obaluaiê.
Os povos Jêjes, de língua Fon, tinham como divindades os Voduns. A divindade Jêje correspondente a Omolu-Obaluaiê era Sapatá-Ainon, que significa “Dono da Terra”.
O culto Jêje a Sapatá se difundiu na região Mahi, na aldeia chamada Pingini Vedji, perto de Dassa Zumê, porém trazido pelos Nagôs. Em Savalu (região ao norte do Daomé, também na região Mahi), confirma-se a versão de que os Nagôs assimilaram e difundiram esse culto. Conta-se que, liderados por Ahosu Soha, os Jêjes fugiam das regiões destruídas pelas campanhas dos reis de Abomey contra seus vizinhos do leste, vindo a estabelecer-se naquela localidade. Durante seu percurso, Ahosu Soha encontrou em Damê, no rio Weme, os Kadjanu, Nagôs originários da região do Egbadô. Estes Nagôs se dirigiam também para o norte e se juntaram a Ahosu Soha, para se estabelecerem em Savalu, com seu deus Agbosu.
Essa origem Nagô-Iorubá é também revelada por dois fatos: durante sua iniciação, as pessoas dedicadas a Sapatá (os sapatasi) são chamadas de ànàgonu (anago ou nagô); e a língua usada no ritual de iniciação e nas orações é o iorubá primitivo, ainda falado diariamente pelos Aná.
Enquanto os Jêjes cultuavam o Vodun Sapatá, os povos Nagôs (de língua iorubá) tinham divindades semelhantes, denominadas Orixás, e as chamavam de Obaluaiê e
Omolu, indistintamente.
Verger comenta haver relatos sobre a existência de dois Xapanã. Um era Sànpònná-Airo, de origem Tapá. O outro teria vindo do Daomé para Oyó e era chamado Sànpònná-Boku, nome que o aproxima de Nanã Buruku e que também revelaria os laços existentes entre Obaluaiê e Nanã.
Sombrio e grave como Nanã (sua mãe) e como Iroko e Oxumaré (seus irmãos), Omolu é, portanto, uma divindade da cultura Jêje, depois assimilada pelos Nagôs.
A comprovação de que as divindades Jêjes são mais antigas que as dos Nagôs-Iorubás foi estudada por Pierre Verger, como já foi visto, com base nas guerras e movimentos migratórios dos povos africanos, quando os conquistadores muitas vezes encontravam entre os povos dominados divindades mais antigas e para eles desconhecidas, e vice-versa; e acontecia de uns assimilarem as divindades dos outros. Mas um fator decisivo apontado por Verger, também com base em registros históricos, é o fato da não utilização de instrumentos de ferro nos rituais de sacrifício animal para Omolu, Obaluaiê e Nanã; indício de que eram divindades cultuadas antes da Idade do Ferro e, portanto, também anteriores a Ogum (considerado o dono do ferro e de todos os metais).
Um aspecto interessante a ser analisado diz respeito às diferenças de arquétipo entre os mitos dos vários povos africanos.
As divindades dos Nagôs (os Orixás) são extrovertidas, alegres e têm características de comportamento (ciúmes, temperamento guerreiro, docilidade, irritação etc.) que as identificam e aproximam dos seres humanos.
As divindades Jêjes (os Voduns) apresentam um comportamento mitológico austero, grave e ameaçador, decorrente de uma visão religiosa na qual há um maior distanciamento entre deuses e humanos. Qualquer aproximação dos deuses era motivo para se temer uma tragédia; e daí vinha o conceito de que a divindade trazia a morte, a doença etc.
No encontro dessas duas culturas, os Nagôs-Iorubás passaram a ver as divindades mais sombrias dos Jêjes como fonte de perigo e temor. No caso específico de Omolu, ele seria o registro da passagem de castigos sociais, ficando relacionado a epidemias (como a varíola, que na época dizimava comunidades inteiras). Acreditava-se que Omolu castigava com violência o ser humano que faltasse com ele ou com um filho seu. Dentro dessa visão, uma negociação ou um aplacar da atuação de Omolu era difícil de obter; sendo mais provável de ser alcançada em relação aos Orixás dos Nagôs-Iorubás (menos severos e mais “humanos”).
Na tradição africana, Omolu é filho de Nanã e Oxalá.
É irmão carnal de Iroko e Oxumaré e irmão adotivo de Ogum e Exu.
Seu parentesco com Oxumaré e Iroko é observado em Ketu, onde se pode ver uma lança (okó Omolu) cravada na terra e esculpida em madeira, na qual figuram Omolu, Oxumaré e Iroko. Também é observado em Fita, próximo de Pahougnan, território Mahi, onde o rei Oba Sereju recebeu o fetiche Moru, composto de três fetiches: Moru (Omolu), Dan (Oxumaré) e Loko (Iroko).
Segundo as lendas, Omolu é, ainda, o irmão mais velho de Xangô Ajaká.
E porque Xangô destronou um Omolu velho e assumiu seu lugar, existiria uma rivalidade entre os dois Orixás. Por este motivo, filhos de Omolu não participam da roda de Xangô; no Olubajé, a grande cerimônia em honra de Obaluaiê-Omolu, não entra amalá (comida tradicional de Xangô); e na comida de Xangô não entram as pipocas (comida ritual de Omolu e de Obaluaiê).

2-Características de Omolu na África antiga e nas religiões derivadas.

Na África, Omolu está relacionado ao interior da terra (ninù ilé) e também ao fogo, já que este elemento domina as camadas mais profundas do planeta, como comprovam os vulcões em erupção.
Sua ligação é com a terra seca e quente como o calor do fogo e do sol; calor que lembra a febre das doenças infecto-contagiosas. Omulu representa a terra e o sol. Ele é o próprio sol e por isso usa uma coroa de palha que lhe cobre a face, porque ninguém pode olhar diretamente para o sol.
Toda a reflexão em torno de Omolu costuma ocorrer colocando-o como um Orixá ligado à terra, o que é correto. Mas, na visão africana, não se desconsidera a sua relação com o fogo do interior da terra, com as lavas vulcânicas, com os gases etc. Afinal, o que pode ser mais devastador que o fogo? Só as epidemias, as febres e as convulsões lançadas por Omolu. A sua matéria de origem é a terra e, como tal, Omolu é o resultado de um processo anterior.
Seu poder está extraordinariamente ligado à morte. Ele detém o poder sobre os espíritos e os ancestrais, que o seguem. Sob o seu manto de palha, Omolu esconde o mistério da morte e do renascimento. Ele é a própria terra que recebe os nossos corpos para que se tornem pó. É o Senhor dos cemitérios. Acredita-se que quando morre uma pessoa, Omolu senta-se em cima do corpo, reivindicando seus direitos. Para muitos, Omolu é o médico dos pobres. Omolu-Obaluaiê andou por todos os cantos da África, muito antes de surgirem algumas civilizações, porque é anterior à Idade dos Metais. Na sua peregrinação, ele conheceu todas as dores do mundo, superou todas e se tornou o médico dos pobres ao salvar  a vida dos necessitados, muito antes que houvesse a ciência.
Assim como Nanã, Omolu é o patrono dos kauris (búzios).
Ele carrega uma lança de ferro e veste um capuz de palha da costa ornado de búzios e cabaças; traje de grande significado e indispensável em todo ritual ligado à morte e ao sobrenatural.
O ikó é a fibra da ráfia, obtida das palmas novas de Yigyogóro (a palmeira do dendê ou dendezeiro), árvore sagrada. A palha é obtida dos talos centrais da palmeira ainda nova, antes que as suas folhas se abram e se curvem.
O fato de Omolu cobrir-se com ikó e de ornar-se com búzios e cabaças mostra que estamos na presença de um Orixá ligado diretamente com a morte e que suas atuações estão envoltas em mistérios que somente os iniciados podem acessar.
Uma versão fala que essa vestimenta lhe foi dada por Ogum. Outra, que ele a recebeu de seu irmão Oxóssi. Uma terceira diz que foi Yemanjá quem a teceu. Todas as lendas narram que ele a recebeu para cobrir suas chagas e, principalmente, para cobrir os próprios olhos, pois eles contêm o brilho do sol e quem os olhasse diretamente ficaria com a visão prejudicada.
Omolu é o dono da terra.
A ele pertencem todos os grãos, e ele é quem nos dá todo o tipo de alimentos. Por isso, também é muito associado aos troncos e aos ramos das árvores.
Suas comidas secas (isto é, em que não há sacrifício animal) incluem água, milho branco, acaçá, aberém sem tempero, arroz, feijão preto com dendê, pipocas (“latipá doburu”), verduras refogadas no dendê (efó).
Entre as comidas secas, as quizilas (euós ou proibições) são: peixe de pele, feijão, caranguejo, jaca, folhas trepadeiras. E os filhos deste Orixá não podem fazer uso da cachaça.
Os animais tradicionalmente oferendados a Omolu são: porco, cabrito, galos carijós, frangos rajados, galinha d'angola, tatu, cágado, patos pretos e brancos.
Sua grande “quizila” (euó) é o carneiro.
Ele transporta o axé preto, vermelho e branco.
Quanto aos fios de contas, o colar tradicional de Omolu é o laguidibá, feito de pequenas sementes de palmeira importada, ou então talhadas em pedaços de casca de coco, sempre bem juntas e de cor preta.
Também são usados os brajás de búzios brancos, numa associação aos mortos.
Outras opções: colares de contas de louça marrom com riscas pretas; ou de contas de louça vermelha com riscos pretos.
A qualidade Omolu Jagun usa laguidibá vermelho e também contas de louça vermelhas e pretas alternadas.
Na Tradição Angola, Omolu (o Velho) usa miçangas pretas e brancas. E Obaluaiê (o Moço) geralmente usa contas pretas, vermelhas e brancas. Dependendo da qualidade, usará o amarelo, o preto e o marrom.
No Ketu, a cor branca simboliza o frio, a imobilidade, o silêncio, a criação e a morte. A
cor preta é associada à terra e aos mortos. O vermelho simboliza o sangue, a guerra, o fogo, a geração e o movimento. O marrom tem o mesmo simbolismo que o vermelho. E o amarelo é uma cor benéfica, que lembra a riqueza, a fecundidade e a fertilidade.
Na preparação dos colares nunca se usam fios plásticos, de náilon ou sintéticos.
No Culto de Nação e no Candomblé, Omolu é associado ao número 14. Por esse motivo, seus
colares são de 14 fios e com 14 firmas (ou em número relacionado a 14).
Sua saudação é ATÓTÓ- que quer dizer: silêncio, calma. Uma reverência ao Grande Orixá Velho, diante do qual devemos manter silêncio, submissão e respeito.
No Candomblé o dia consagrado a Omolu é a segunda-feira.

3- A dança de Omolu no Candomblé Jêje-Nagô

O Olubajé é a grande cerimônia realizada no Candomblé para saudar Omolu (filho do senhor), bem como Obaluaiê (rei da terra), Onilé (senhor da terra) e Sapatá e Xapanã (deus da varíola). É celebrado nas Casas de Candomblé do Rio de Janeiro e de Salvador/Bahia e nos chamados Terreiros Nagô ou Jêje-Nagô da cidade de São Paulo.
É um banquete, onde o Orixá recebe de sete a vinte e uma comidas rituais, que são colocadas em potes e alguidares, sobre folhas especiais, esteiras e panos do mais puro branco.
Participam do banquete, também recebem oferendas e dançam com Obaluaiê-Omolu
os Orixás da sua família mítica.
Oxumaré (seu irmão) é o primeiro a dançar; após, vem Nanã (sua mãe); em seguida, Yemanjá (a mãe adotiva); depois, Yansã (a amiga e companheira que reina com ele sobre os espíritos dos mortos). Fechando a noite de gala, vem Oxalá, “o pai da criação”.
No dia da festa, a coluna central do espaço sagrado é envolvida por grandes laços de tecidos multicoloridos, de onde sobressaem o branco, o preto e o vermelho, que são as cores de Omolu. Da coluna central partem guirlandas de longos e numerosos fios de pipocas, formando uma espécie de “segundo teto” do barracão.
Há uma sequência de toques dos atabaques, para cada momento da grande celebração, e dependendo de qual divindade é saudada ou se faz presente entre os devotos. Pois o som carrega axé, e o ritmo tem uma natureza idêntica à natureza do Orixá. Alguns toques são acompanhados de cânticos e louvações.
Omolu dança ao toque Opanijé.
Ele dança com o corpo curvado para a terra e faz movimentos lentos ora para a direita, ora para a esquerda. Veste sua roupa de palha (azê) e carrega um cetro (xaxará) e uma lança de ferro (okó).
Durante a cerimônia, os devotos são abençoados, diversas vezes, com o derramamento de pipocas consagradas, com a finalidade de purificação e cura. [*Nota: O ritual do Olubajé é descrito de forma detalhada no livro “O Banquete do Rei - Olubajé”, de José Flávio Pessoa de Barros, Editora Pallas.]
Nas demais celebrações do Candomblé Ketu, a dança de Omolu geralmente se faz também ao toque Opanijé (usado no Olubajé, e igualmente dedicado a Obaluaiê, Onilé, Sapatá e Xapanã). É um ritmo lento, marcado por batidas fortes do Run (o atabaque maior do conjunto, de tom grave), e tem poucas cantigas, sendo na maioria das vezes apenas instrumental.
Dentro dos ritmos Jêje, a dança de Omolu acontece ao toque Vivauê.
Os ogãs precisam ter respeito pelos atabaques, pois a Omolu pertencem os couros e
Ele é o padrinho de todos os ogãs. Quando se faz oferenda aos atabaques, também se faz a Omolu.

4-Em resumo:

Obaluaiê ou Omolu- Na África, esses nomes geralmente se referem às fases míticas,
onde o mesmo deus seria mais jovem ou mais velho.
Omolu é a energia que rege as pestes (como a varíola, o sarampo, a catapora), as doenças de pele e as doenças transmissíveis em geral.
Também, e principalmente, é o “onixegum” ou “nixegum” médico, curandeiro, médico dos orixás- no dizer dos Candomblés da Bahia.
Omolu rege também:
*a força da terra (herdada de sua filiação a Nanã);
*a umidade da terra (porque foi adotado por Yemanjá);
*e as doenças das plantações.
Ele representa:
*o ponto de contato do homem com o mundo (a terra);
*a interface pele-ar;
*a aparência das coisas estranhas e a relação com elas.
No aspecto positivo, ele rege e cura, através da morte e do renascimento.
Em Salvador/Bahia, todo dia 16 de agosto, em frente à igreja de São Lázaro, diversos devotos de São Lázaro, de Omolu e de Obaluaiê recebem os populares banhos de pipocas (as flores de Omolu-Obaluaiê), no intuito de se livrarem de doenças e de evitá-las. Quando o assunto é doença, as promessas geralmente são dirigidas a Obaluaiê (o jovem médico), ou a Omolu (o velho médico).
Os Iorubás acreditam que este mito ou divindade nos mostra que o mal existe e que
pode ser curado; mas, principalmente, que é preciso ter consciência do momento em que ele terminou, para que saibamos recomeçar depois de um sofrimento violento.

Lendas

1-Omolu se torna o grande curador
Quando Omolu era um menino de uns doze anos, saiu de casa e foi para o mundo para fazer a vida. De cidade em cidade, de vila em vila, ia oferecendo seus serviços, procurando emprego. Mas não conseguia nada. Ninguém lhe dava o que fazer, ninguém o empregava; e ele teve que pedir esmola. Mas ao menino ninguém dava nada, nem do que comer, nem do que beber. Tinha um cachorro que o acompanhava, e só.
Omolu e seu cachorro retiraram-se no mato e foram viver com as cobras.
Omolu comia do que a mata dava: frutas, folhas e raízes. Mas os espinhos da floresta feriam o menino. As picadas de mosquitos cobriam-lhe o corpo. Omolu ficou coberto de chagas. Só o cachorro confortava Omolu, lambendo-lhe as feridas.
Um dia, enquanto dormia, Omolu escutou uma voz:
       “Estás pronto. Levanta e vai cuidar do povo.”
Omolu viu que todas as feridas estavam cicatrizadas, não tinha dores nem febre. Juntou suas cabacinhas de água e remédios que aprendera a usar com a floresta, agradeceu a Olorum e partiu.
Naquele tempo, uma peste infestava a Terra. Por todo lado morria gente, todas as aldeias enterravam seus mortos. Os pais de Omolu consultaram um babalaô, que lhes disse que Omolu estava vivo e que ele traria a cura para a peste. E assim foi.
Todo lugar aonde chegava, a fama precedia Omolu. Todos o esperavam com festa, pois ele curava. Os que antes lhe negaram até mesmo água de beber agora imploravam por sua cura. Ele curava a todos, afastava a peste. Então dizia que se protegessem, levando na mão uma folha de dracena (o peregum) e pintando a cabeça com efum, ossum e uági (os pós de cor branca, vermelha e azul usados nos rituais e encantamentos). Omolu curava os doentes e, com o xaxará, varria a peste para fora da casa, para que a praga não pegasse outras pessoas da família. Limpava as casas e aldeias com o xaxará, sua mágica vassoura de fibras de coqueiro, seu instrumento de cura, seu símbolo, seu cetro.
Ao voltar para casa, Omolu curou os pais. Todos estavam felizes. Todos cantavam e louvavam o curandeiro e o chamaram de Obaluayê (Senhor da Terra). Todos davam vivas ao Senhor da Terra, Obaluayê. (Reginaldo Prandi, “Mitologia dos Orixás”, 2005.)
2-Como Omolu ganhou suas chagas e foi curado por Yemanjá
Por causa do feitiço usado por Nanã para engravidar, Omolu nasceu todo deformado. Desgostosa com o aspecto do filho, Nanã abandonou-o na beira da praia, para que o mar o levasse. Um grande caranguejo encontrou o bebê e atacou-o com as pinças, tirando pedaços da sua carne.
Quando Omolu estava todo ferido e quase morrendo, Yemanjá saiu do mar e o encontrou. Penalizada, acomodou-o numa gruta e passou a cuidar dele, fazendo curativos com folhas de bananeira e alimentando-o com pipoca sem sal nem gordura, até que o bebê se recuperou. Então Yemanjá criou-o como se fosse seu filho.
3-Xapanã ganha o segredo da peste na partilha dos poderes de Olodumare
Olodumare um dia decidiu distribuir seus bens. Disse aos seus filhos que se reunissem e repartissem entre si as riquezas do mundo. Ogum, Exú, Ocô, Xangô, Xapanã e os outros orixás deveriam dividir os poderes e mistérios sobre as coisas na Terra.
Num dia em que Xapanã estava ausente, os demais orixás se reuniram e dividiram todos os poderes entre si, não deixando nada de valor para Xapanã. Um ficou com o trovão; o outro recebeu as matas; outro quis os metais; outro ganhou o mar. Escolheram o ouro, o raio, o arco-íris; levaram a chuva, os campos cultivados, os rios. Tudo foi distribuído entre eles, cada coisa com seus segredos, cada riqueza com o seu mistério. A única coisa que sobrou sem dono, desprezada, foi a peste.
Ao voltar, nada encontrou Xapanã, a não ser a peste, que ninguém quisera.
Xapanã guardou a peste para si, mas não se conformou com o golpe dos irmãos. Foi procurar Orunmilá, que lhe ensinou a fazer sacrifícios, para que seu enjeitado poder fosse maior que o dos outros. Xapanã fez sacrifícios e aguardou.
Um dia, uma doença muito contagiosa começou a espalhar-se pelo mundo. Era a varíola. O povo, desesperado, fazia sacrifícios para todos o orixás, mas nenhum deles podia ajudar. A varíola não poupava ninguém, era uma mortandade. Cidades, vilas e povoados ficavam vazios.
O povo foi consultar Orunmilá para saber o que fazer. Ele explicou que a epidemia acontecia porque Xapanã estava revoltado, por ter sido passado para trás pelos irmãos. Orunmilá mandou fazer oferendas para Xapanã. Só Xapanã poderia ajudá-los a conter a varíola, só ele tinha o poder sobre as pestes, só ele sabia os segredos das doenças. Tinha sido esta sua única herança.
Então, todos pediram proteção a Xapanã e sacrifícios foram realizados em sua homenagem. A epidemia foi vencida. E Xapanã agora era respeitado por todos. Seu poder era infinito, o maior de todos os poderes.
4-Omolu ganha pérolas de Yemanjá
Omolu foi salvo por Yemanjá quando sua mãe, Nanã Buruku, ao vê-lo doente e coberto de chagas, abandonou-o numa gruta perto da praia.
Yemanjá recolheu Omolu e o lavou com a água do mar. O sal da água secou suas feridas. Omolu tornou-se um homem vigoroso, mas ainda carregava as cicatrizes, as marcas feias da varíola.
Yemanjá confeccionou para ele uma roupa toda de ráfia, com a qual ele escondia as marcas de suas doenças. Era um homem poderoso, andava pelas aldeias e, por onde passava, deixava um rastro ora de cura, ora de saúde, ora de doença, Mas continuava sendo um homem pobre.
Yemanjá não se conformava com a pobreza do filho adotivo. Ela pensou:
     “Se eu dei a ele a cura, a saúde, não posso deixar que seja um homem pobre”. E ficou imaginando quais riquezas poderia lhe dar.
Yemanjá era a dona da pesca, tinha os peixes, os polvos, os caramujos, as conchas, os corais. Tudo aquilo que dava vida ao oceano pertencia a sua mãe, Olocum, que dera tudo a Yemanjá.
Yemanjá resolveu então ver suas jóias. Tinha algumas, mas enfeitava-se mesmo era com algas, com água do mar, vestia-se de espuma e se admirava com o reflexo de Oxu, a Lua. Yemanjá se lembrou de que tinha uma grande riqueza, que eram as pérolas que as ostras fabricavam para ela. Muito contente com esta lembrança, chamou Omolu e lhe disse:
     “De hoje em diante, és tu quem cuida das pérolas do mar. Serás chamado de Jeholu, o Senhor das Pérolas”.
Por isso as pérolas pertencem a Omolu. Por baixo de sua roupa de ráfia, enfeitando seu corpo marcado de chagas, Omolu ostenta colares e mais colares de pérola, belíssimos colares. (“Mitologia dos Orixás”, Reginaldo Prandi, 2005.)

Divindades assemelhadas

Hades- Divindade grega. Deus dos mortos, que morava no mundo subterrâneo. Filho de Cronos e Réia. Tem um cão de três cabeças (Cérbero), que fica na entrada do mundo subterrâneo, desempenhando a função de seu guardião, para evitar que os vivos entrassem e para assustar os mortos que chegavam. Entre os romanos, é Plutão.
Yama- Divindade hindu masculina da morte. No Ramayana, ele se passa por cachorro, salvando Rama da morte.
Anúbis- Divindade egípcia masculina da morte; o grande juiz dos mortos.
Arawn- Divindade celta da morte. Aparece sempre acompanhado de lobos brancos.
Iwaldi- Divindade escandinava. É “o anão da morte”, que esconde a vida no fundo do oceano.
Tung-Yueh Ta-ti (Tong Yue Dadi)- Divindade chinesa do sagrado monte Tai Shan e dirigente do mundo subterrâneo. É ele quem calcula, num ábaco, o tempo de vida que cada um tem na Terra. Senhor da morte, é responsável pelo desencarne.
Mictlantecuhtli- Divindade asteca. Deus da morte, Senhor de Mictlán, o reino silencioso e escuro dos mortos.
Ah puch- Divindade maia da morte, senhor do reino dos mortos.
(Fonte: O livro “Deus, “Deuses” e Divindades, Alexandre Cumino, Madras Editora, 2004.)

Características dos filhos de Omolu

No positivo, os filhos de Omolu são extremamente prestativos e trabalhadores, são
amigos de verdade. São perseverantes, pacientes, amorosos e fiéis a uma causa. Para os filhos de Omolu, a justiça não é a dos homens, e sim a de Deus (Olorun).
Muito intuitivos e de mente aguçada, têm uma capacidade mental atualizada ao seu tempo.
Raramente adoecem e quando isso acontece, recuperam-se rapidamente.
São discretos e um tanto austeros. Guardam sua individualidade, mesmo no círculo de suas amizades.
Não têm grandes ambições. São despretensiosos. Tiram a roupa do corpo para agradar uma pessoa e tratam o dinheiro pelo lado do prazer, da satisfação.
Muito limpos e vaidosos, na maioria das vezes são espiritualmente muito bonitos. E mesmo que não tenham muita beleza física, exercem atração sobre as pessoas porque o seu lado espiritual, íntimo, é muito forte.
Gostam da ordem e são ótimos mestres instrutores, levando suas empreitadas até o fim, sem se importarem com o preço a ser pago. Querem que as coisas saiam da maneira que planejaram.
Sinceros, não levam desaforo para casa, respondem no ato quando se sentem ofendidos.  
Nos relacionamentos amorosos, costumam sentir-se atraídos por pessoas de temperamento extrovertido e exuberante. Admiram o brilho do parceiro ou parceira, embora intimamente isso possa lhes causar um sentimento de quase inferioridade e autopunição, já que sua natureza é reservada.
Têm a tendência da mudança. Podem mudar de opinião de uma hora para outra. Parecem “dançar Opanijé”, indo de um lado para outro outro, o tempo todo,  sempre
procurando por algo.
Trabalhadores incansáveis, os filhos de Omolu fazem de tudo no seu templo religioso. Mas não os magoem nem os tratem com indiferença, pois quando se sentem incompreendidos são capazes de exageros e podem ter repentinas depressões.
Fisicamente, costumam ser magros e de traços físicos bem definidos.
Apreciam: o ensino, o misticismo, a magia e as coisas religiosas; roupas bem alinhadas e discretas; a boa mesa; companhias inteligentes; a vida errante e o trabalho descompromissado, como se a qualquer momento fossem partir.
No negativo, os filhos de Omolu tornam-se pessoas pessimistas e teimosas, que adoram exibir os seus sofrimentos e que procuram o caminho mais longo e difícil para atingir algum fim.
Omolu é relacionado a um arquétipo psicológico derivado de sua postura na dança: se nela
Omolu esconde suas chagas dos espectadores, por outro lado sua postura pesada e lenta simboliza o sofrimento que o abate. No comportamento do dia-a-dia, tal tendência pode revelar-se de forma negativa nos seus filhos, através de um caráter tipicamente masoquista. Podem, então, sentir-se incompreendidos e se tornar céticos, reprimidos, perversos, irritantes ou  vingativos.
Quando deprimidos e depressivos, agem como velhos: lentos, exigentes e rabugentos; acham que nada pode dar certo, que nada está bom. Neste caso, é difícil relacionar-se com eles.
Podem não ter muita beleza física e apresentar doenças de pele, marcas no rosto, dores e problemas nas pernas.
Mas o lado positivo dos filhos de Omolu supera, em muito, o lado autodestrutivo que a maioria deles possa ter (uns mais, outros menos).
Oferenda: Velas roxas; crisântemos brancos; flores do campo roxas; vinho tinto seco;
água mineral; um coco seco aberto só nos “olhinhos,” o suficiente para se colocar dentro dele um pouco de mel; um punhado de sal grosso; um punhado de terra vegetal coberta por fios de palha da costa; uma porção de pipoca coberta de coco ralado e estourada em azeite doce (ou no dendê, se for uma oferenda para o corte de magia negativa); frutas (de preferência, as de casca ou polpa escura); ervas.

Onde oferendar: No cemitério (na parte esquerda do cruzeiro); à beira-mar.

Quando oferendar:
Para pedir a cura de doenças. Especialmente nos casos de doenças auto-imunes, infecto-contagiosas, ósseas, musculares e de pele;
Para proteção e defesa contra magias negativas, atuações mentais negativas, ataques externos etc.;
Para o equilíbrio e a cura de enfermidades e desequilíbrios no campo sexual;
Para superar vícios de difícil tratamento;
Para vencer o desamor e o desânimo diante da vida, buscando a recuperação da autoestima e da autoconfiança;
Para o tratamento de processos de obsessão e perturbações ligadas a presenças espirituais desequilibradas no campo magnético do enfermo.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

História Pomba Gira Dama da Noite


Quem nunca ouviu falar na Pomba-Gira Dama da Noite? É uma entidade muito conhecida e prestigiada. Muitas pessoas erroneamente dizem que a Dama da Noite é uma unidade de Maria Padilha, o que na verdade não é! Em todo o nosso estudo a respeito destas maravilhosas entidades, descobrimos que a Gira Dama da Noite foi uma das amantes de D. Pedro I na corte do Brasil.
Conta a história que esta entidade na sua época aqui na terra foi uma mulher muito bonita e rica, pois era uma das mais requisitadas cafetinas da época. Devido a sua beleza e mistério, causava um verdadeiro alvoroço nos corações e desejos dos homens da corte.. que chegavam a ofertar a esta mulher verdadeiras fortunas para passar uma noite em seus braços.
E foi através desta magia da sedução que fez esta linda mulher se afortunar e despertar curiosidade no principe herdeiro do Brasil , D. pedro I.
Na história do Brasil seu nome não é citado, pois chamava-se Helena, mais nas cartilhas e jornais da época este envolvimento chegou a gerar um certo escândalo.
Foi através da psicografia de Fábio Freitas que descobrimos a verdadeira história desta linda entidade que quando chega ao mundo, trás com ela a sua magia e sensualidade. Adora ganhar perfumes e rosas vermelhas nas encruzilhadas, sempre em cima de um pano vermelho seja de morim ou cetim, fuma cigarrilhas longas e toma champgne de Sidra

Outra História conhecida:

Carmem vagava pelas ruas sem saber para onde ir. Perdera os pais, quando tinha cinco anos, e fora morar com seus tios. Tratada como escrava por anos, nunca soube o sentido da palavra felicidade. Analfabeta, somente conhecia os segredos da cozinha e da limpeza que era obrigada a fazer diariamente. O assédio de seu primo tornara-se insuportável conforme crescia em formas e beleza. Tanto o rapaz insistiu que acabou levando-a para a cama, onde foram flagrados pela velha tia, que em nenhum momento duvidou da palavra do filho que acusava a moça de seduzi-lo dia após dia. De nada valeram os apelos e juras de inocência. Imediatamente foi posta na rua sem um tostão e apenas com a roupa do corpo. Agora estava ali perambulando por ruas que não conhecia em uma noite escura e com lágrimas correndo pelo belo rosto. Um homem aproximou-se dela: - O que faz uma moça tão bonita perdida por aqui? E porque chora? Desalentada, começou a falar tudo que havia se passado. Não tinha nada a perder. Quem sabe aquele rapaz não a ajudaria? Fora o único que mostrara interesse no seu drama. Após ouvir tudo ele disse: - Venha comigo, tenho um lugar para você ficar! Sem outra opção a jovem o seguiu. Entraram em um casarão escuro em que somente uma pequena luz bruxuleava. Uma senhora vestida e maquiada com extravagância para àquela hora da noite, atendeu-os prontamente: - Mais uma menina, Jorginho? De maneira brusca, o rapaz agarrou a mulher pelo braço e sussurrou-lhe: - Esta é minha, vou querer somente para mim! - Calma lá garotão! Se você pagar não vejo motivo para que não seja sua. A partir desse momento Carmem transformou-se em mais uma menina da famosa Madame Eglantine. A principio deitava-se com Jorge pela gratidão, aos poucos, porém foi tomando-se de amores pelo rapaz, que em pouco tempo enjoou do que tinha com facilidade. Depois de dois meses de amor incondicional, o rapaz procurou pela Madame e falou: - Já está na hora da garota fazer a vida, não tenho mais como pagar pela sua estadia aqui. Eglantine sorriu com desdém, pois já sabia que o final seria esse, não era a primeira que passava por isso em sua casa. Ao ser informada de suas novas atribuições, a moça desesperou-se, chorou uma tarde inteira. Sem ter como fugir da situação, preparou-se para cumprir o combinado. Sentada no grande salão mal iluminado Carmem aguardava. Cada vez que uma das meninas subia acompanhada de alguém, ela suspirava de alivio por não ter sido escolhida. No entanto, quando já achava que estaria livre por aquela noite, Madame aparece com um senhor: - Querida, trate muito bem o Comendador Belizário, ele é prata da casa! Ao olhar o homem, sentiu o estômago revirar, ele podia ser seu avô! Eglantine percebeu e fixou um olhar gélido sobre ela: - Leve-o para seu quarto e faça tudo para agradá-lo. Com os pés pesados ela subiu as escadas que a levariam para o sacrifício, puxando o comendador pela mão. O velho fungava em sua nuca e ela tentava desviar do contato, ao sentir o hálito mal cheiroso, não resistiu, pediu que ele a soltasse e o empurrou com violência. Isso somente excitou mais o homem que agora literalmente babava em seu pescoço. Instintivamente agarrou a haste de bronze do abajur e desferiu com ódio na cabeça de Belizário. O sangue correu imediatamente manchando seu seio. Mas o velho não caiu, tomado de ira, apertou o pescoço da jovem até que, com os olhos vidrados, ela deu o último suspiro. Assustado pelo que fizera e com o sangue escorrendo pelo rosto, o comendador correu para as escadas onde tropeçou e rolou caindo morto no meio do salão de Madame Eglantine. Durante muitos anos o espírito de Carmem vagou por regiões escuras onde reviu e reviveu carmas e pecados de vidas anteriores. Amparada por linhas auxiliares começou seu trabalho de evolução espiritual utilizando a roupagem da Pomba-Gira Dama da Noite. Quem já se consultou com essa grande mulher sabe dos ótimos conselhos que ela sempre distribui entre sorrisos gentis e calorosos.

Que a Divina Luz esteja entre nós